Em 1944, Lee Won Kuk recebeu do governador japonês da Coreia, o General Abe Nobuyuki, a permissão para ensinar artes marciais.
Levou três tentativas e vários anos de espera para obtê-la. Quando finalmente abriu sua academia no ginásio da Escola Yungshin em Seul, ele a chamou de Chungdohwe, a Associação da Onda Azul. A arte ensinada ali chamava-se Tangsoodo, “o caminho da mão chinesa”, a pronúncia coreana do que os japoneses chamavam de karatê.
Anos depois, numa entrevista à revista Taekwondo Times, Lee descreveu o objetivo daquele projeto: “Nosso principal objetivo era incutir disciplina e honra em jovens deixados sem uma forte orientação moral naqueles tempos conturbados.”
Essa frase é o embrião filosófico de tudo que o taekwondo viria a ser como projeto educacional. E ela foi dita por um homem que aprendera a arte no Japão, com um mestre de Okinawa, dentro de uma universidade chamada Chuo, no coração de Tóquio, durante a mesma ocupação que deixara os jovens coreanos sem orientação moral.
O paradoxo é o tema deste artigo.
Os coreanos que o Japão mandou estudar
A ocupação japonesa da Coreia operou em duas direções simultâneas. Para baixo, suprimia: língua, nomes, tradições, identidade. Para cima, numa camada estreita, promovia: famílias coreanas com recursos enviavam filhos para universidades japonesas, que davam contatos e educação necessários para prosperar dentro de uma sociedade dominada pelos japoneses.
Essas universidades tinham dojos. Entre 1922 e 1940, as principais instituições de Tóquio e Osaka estabeleceram clubes de karatê sob a direção de instrutores de Okinawa: Funakoshi Gichin, fundador do Shotokan; Mabuni Kenwa, fundador do Shito-ryu; Toyama Kanken, fundador do Shudokan. Eram, naquele momento, os maiores especialistas do mundo em artes marciais sistematizadas.
Os jovens coreanos que frequentavam essas universidades treinavam com eles. E quando voltaram para casa, em 1945, trouxeram o que tinham aprendido.
Lee Won Kuk: o primeiro a pedir permissão
Lee Won Kuk nasceu em 1907 e foi para Tóquio em 1926 para cursar o ensino médio. Formou-se em direito na Universidade Chuo, onde estudou karatê Shotokan com Funakoshi Gichin e com o filho dele, Funakoshi Yoshitaka. Visitou Okinawa. Passou por Xangai e pela província de Honan, observando práticas de Chuan Fa, o método do punho chinês. Voltou para a Coreia em 1944 com emprego no Ministério dos Transportes e com um projeto.
Teve que pedir permissão ao governador japonês três vezes antes de obtê-la. Primeiro para ensinar a cidadãos japoneses. Logo depois, a um grupo seleto de coreanos. O currículo que ele montou tinha dez técnicas de mão e oito de chute, todas voltadas para pontos vitais do corpo. Era claramente derivado do Shotokan. Mas os alunos que ele recrutou incluem algumas das figuras mais importantes do taekwondo moderno. E o critério de seleção era deliberado:
“Tínhamos que ter o cuidado de recrutar e manter apenas os melhores e mais motivados alunos.”
Lee não queria uma academia de combate. Queria uma escola de formação de caráter. Em 1944, sob ocupação japonesa, com uma arte marcial de origem japonesa, ministrando aulas num ginásio coreano com autorização do governador colonial. A contradição é completa. E é exatamente por isso que merece ser contada.
Hwang Kee: o autodidato da Manchúria
Hwang Kee nasceu em 1914 numa região que hoje fica na Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias. Seu pai era um estudioso reconhecido da Dinastia Yi. Desde criança, Hwang se interessava por artes marciais, em particular pelo antigo jogo de chutes coreano, o taekkyon.
Diferente de Lee Won Kuk, Hwang nunca estudou no Japão. O seu percurso foi outro. Em 1935, foi trabalhar para a South Manchurian Railway, a gigantesca empresa japonesa que funcionava como veículo da expansão imperial no nordeste da China. Em Chaoyang, a 400 quilômetros a nordeste de Pequim, conheceu um instrutor chinês chamado Yang Kuk Jin e estudou Quanfa, incluindo o conjunto de exercícios Shaolin do norte conhecido como Tamtui e a forma Taijiquan estilo Yang.
De volta à Coreia, trabalhou para as ferrovias nacionais a partir de 1939 e passou os seis anos seguintes estudando por conta própria livros de karatê disponíveis na biblioteca da empresa. As formas que ele desenvolveu e depois ensinou na Moo Do Kwan eram, como os especialistas confirmaram décadas depois, claramente derivadas dos livros de Funakoshi, especialmente das versões de 1922, 1925 e 1935.
Hwang nunca foi discípulo de ninguém. Aprendeu com um chinês na Manchúria, com livros japoneses numa biblioteca de ferrovia, e com o que estava disponível. Quando tentou ensinar a arte que chamou de Hwasoodo, de raiz chinesa, descobriu que os coreanos da época não tinham apreço por artes baseadas na China, por causa de décadas de colonização e doutrinação japonesa. Mudou para Tangsoodo, baseado em Funakoshi, e aí sim as turmas não dispersavam.
A ironia é precisa: o colonizador tinha condicionado os coreanos a valorizarem exatamente a arte que ele mesmo trouxera.
Yun Byung-In: o que desapareceu
Nem todos os fundadores dos kwans chegaram ao outro lado inteiros.
Yun Byung-In foi para o Japão em 1938 para estudar na Universidade Nihon, onde treinou com Toyama Kanken, fundador do karatê Shudokan. Toyama ficou tão impressionado com a habilidade dele em Quanfa que os dois trocaram conhecimentos, e Yun acabou recebendo o grau de 4° Dan e um certificado de mestre. Voltou à Coreia em 1945 e abriu sua academia no YMCA de Seul.
Em agosto de 1950, um mês depois do início da Guerra da Coreia, desapareceu. Seu irmão mais velho, um capitão do Exército do Povo da Coreia do Norte, o forçou ou convenceu a atravessar para o norte, deixando para trás a esposa e uma filha de oito meses.
O que se sabe do que aconteceu depois vem de pesquisas posteriores. Em 1966, as autoridades de Pyongyang o designaram para ensinar kuksool, arte marcial nacional, a um grupo de elite da capital. Foi dispensado em 1967 porque o que ele ensinava não era um esporte: a Coreia do Norte queria um esporte competitivo para rivalizar com o taekwondo do sul. Yun foi enviado de volta para Cheong-jin, onde trabalhou numa fábrica de cimento até morrer de câncer de pulmão, em 1983.
Sua morte, naquele país, passou despercebida.
Choi Hong-hi: a conspiração, o general, o nome
Choi Hong-hi nasceu em 1918 numa vila do que hoje é a Coreia do Norte. Aos quinze anos, foi mandado para aulas de caligrafia com Han Il-dong, que além de caligrafia também ensinava o antigo jogo de chutes coreano, o taekkyon. Em 1938, foi para o Japão estudar. Em 1940, estudou karatê na Universidade Chuo, em Tóquio, a mesma onde Lee Won Kuk havia se formado. Acabou recebendo o grau de 2° Dan.
Em 1943, foi convocado pelo Exército Imperial Japonês. Em outubro de 1944, foi preso. Ele e outros jovens coreanos da 30ª Divisão de Infantaria Japonesa haviam planejado uma insurreição. O grupo chamava-se “Partido dos Três Mil”. A trama foi descoberta por informante. Vinte e sete membros foram capturados, condenados e sentenciados. Alguns morreram em cativeiro. Choi sobreviveu.
Esse episódio explica muito do que Choi faria depois, incluindo o conflito permanente com generais sul-coreanos que tinham servido voluntariamente no exército japonês. Ele nunca perdoou a colaboração. Essa ferida pessoal se tornaria combustível político por décadas.
Depois da libertação, Choi ingressou na nova academia militar americana, tornou-se tenente e subiu rapidamente. Em 1952 era general de duas estrelas. Em 1954, estabeleceu sua academia dentro do exército, a Oh Do Kwan, com Nam Tae-hi como instrutor-chefe, o oficial que havia usado o Tangsoodo em combate corpo a corpo durante a guerra.
Em setembro desse mesmo ano, a 29ª Divisão fez uma demonstração para o presidente Rhee Syngman. O presidente ficou entusiasmado. Ordenou que a arte fosse ensinada a todas as tropas. Um novo ginásio foi construído.
O nome que costurou passado e presente
Em abril de 1955, uma comissão reuniu mestres, militares e intelectuais para escolher um nome unificado para o que os kwans ensinavam. A arte precisava de um rosto coreano. Choi Hong-hi propôs “taekwondo”.
A escolha não foi aleatória. Fonologicamente, taekwondo ressoa com taekkyon, o antigo jogo de pernas que o calígrafo Han Il-dong havia ensinado ao adolescente Choi quarenta anos antes. A semelhança sonora era uma declaração de continuidade que a evidência histórica não sustentava facilmente, mas que respondia a uma necessidade política clara: a Coreia precisava de uma arte marcial que fosse reconhecidamente sua. Não karatê com outro nome.
As formas que Choi e Nam Tae-hi desenvolveram para a nova arte receberam nomes de patriotas coreanos, generais históricos, monges, filósofos, organizações de resistência. As técnicas vinham do Shotokan. Os nomes vinham da história coreana. O uniforme branco havia sido introduzido no Japão por Jigoro Kano, fundador do judô, por volta de 1924. O dobok do taekwondo é essencialmente idêntico.
A arte foi construída, conscientemente, como uma síntese. Técnicas absorvidas do colonizador, nomes carregados da identidade que o colonizador havia tentado apagar, num corpo que pertencia à Coreia.
O que o Sabunim herda
Os fundadores dos kwans não eram heróis puros nem colaboradores ingênuos. Eram homens de uma geração impossível, formados por um sistema que queriam superar, usando ferramentas desse mesmo sistema para construir algo que sobrevivesse a ele.
Lee Won Kuk ensinou com autorização do governador colonial e formou os mestres que viriam depois. Hwang Kee aprendeu de livros de Funakoshi num escritório de ferrovias e criou a maior associação de artes marciais da Coreia dos anos 1960. Yun Byung-In morreu numa fábrica de cimento em Pyongyang sem que o mundo soubesse. Choi Hong-hi conspirou contra os japoneses, sobreviveu, virou general, e escolheu um nome para a arte que ecoava o jogo de rua que havia aprendido de um professor de caligrafia.
O taekwondo não foi encontrado. Foi construído. Por homens específicos, com biografias específicas, em circunstâncias históricas que os moldaram de maneiras que ainda se refletem na arte que você ensina.
Quando um aluno pergunta de onde vem o taekwondo, a resposta verdadeira não cabe numa frase. Mas começa com Lee Won Kuk num ginásio em Seul, em 1944, pedindo permissão ao governador japonês pela terceira vez.
Próximo artigo da série: A herança dividida, por que o taekwondo tem três pais e nenhum herdeiro legítimo.








