Como o Taekwondo aplicado a realidade urbana pode ser uma ferramenta para salvar vidas de mulheres.
Francielli Andrade nunca se sentiu confortável com exercício físico. Na sexta-feira passada, ela esteve na aula inaugural de um novo treinamento de defesa pessoal feminina, em São José, e saiu de lá ansiosa pela próxima aula.
Em depoimento enviado após a aula, ela descreveu a experiência com uma honestidade que talvez seja o retrato mais fiel do que é começar do zero:
“Eu sempre quis fazer aula de defesa pessoal e fiquei muito feliz com a oportunidade de conhecer o trabalho do Prof. Arnaldo Recchia. Apesar de ter muita dificuldade com todo tipo de atividade física, além de insegurança, me senti muito bem. Recebi orientação detalhada não só de técnicas, mas de atitude. Estou ansiosa para as próximas aulas e recomendo para todas as mulheres.”
Francielli é advogada. Como ela, a maior parte da turma também é. A aula que ela descreve é a inaugural de um treinamento continuado de defesa pessoal feminina, com encontros quinzenais às sextas e sábados, na Jeong Martial Arts.
A história começa um pouco antes. Neste ano, o Prof. Arnaldo Recchia firmou uma parceria com a OAB São José, por meio das comissões da Mulher Advogada e de Esporte, sob coordenação de Izita Martins e Dayse Alves, para ministrar dois seminários sobre defesa pessoal feminina e violência contra a mulher. O primeiro foi voltado a estudantes de Direito. O segundo, realizado em maio, reuniu mais de 40 advogadas e teve uma adesão tão expressiva que o próprio professor decidiu desdobrar a iniciativa: oferecer, a partir daquele grupo, um treinamento continuado, agora sob a bandeira da Jeong Martial Arts.
A nova oferta se insere em um trabalho muito mais antigo. Há 23 anos, o professor oferece, gratuitamente, cursos e seminários de defesa pessoal voltados especificamente para mulheres. Os seminários com a OAB São José são, portanto, a mais recente de uma série de parcerias e públicos que já passaram por essa capacitação ao longo de mais de duas décadas, e o curso continuado que nasce agora na Jeong é a forma mais recente que esse trabalho assume.
Os números ajudam a explicar por que esse tipo de curso segue sendo necessário. O Mapa do Feminicídio, lançado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) em março deste ano, é o levantamento mais detalhado já produzido sobre o tema no estado. Construído pelo Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT) a partir de dados oficiais e de procedimentos investigativos, o estudo analisou os feminicídios ocorridos no estado entre 2020 e 2024, totalizando 335 assassinatos motivados por violência de gênero, a maioria em contextos íntimos. Somando-se o restante das mortes violentas de mulheres registradas no mesmo período, o número absoluto sobe para 596 até 2025.
Dois dados do levantamento dialogam diretamente com o método que orienta as aulas da Jeong. O primeiro é sobre o vínculo entre agressor e vítima: 71% dos feminicídios em Santa Catarina são cometidos por companheiros ou ex-companheiros, mesmo quando o relacionamento já havia terminado. O segundo é sobre o histórico prévio de violência: 68,9% das vítimas já tinham sofrido violência antes, ainda que essa trajetória nem sempre tivesse se transformado em registro formal nos serviços de saúde, assistência social ou segurança pública. Já em relação à proteção judicial, cerca de 19,7% das vítimas de feminicídio entre 2020 e 2024 tinham medida protetiva, enquanto a grande maioria nunca chegou a buscar esse tipo de amparo.
É exatamente essa lacuna, entre o primeiro sinal de risco e a busca por proteção formal, que o trabalho do Prof. Recchia tenta preencher.
Uma aula, duas reações sinceras
A advogada Elisangela Decker, também presente na aula inaugural, resumiu a experiência de forma direta:
“Dia de alinhar o corpo e a mente. Aprender sobre defesa pessoal com o melhor mestre. Muito obrigada pela aula de ontem. Parabéns pelo seu trabalho e preocupação com a segurança das mulheres.”
A fala de Francielli, lida ao lado da de Elisangela, toca em um ponto central da metodologia: a aula não exige histórico de prática física nem cobra desempenho atlético. O foco está em atitude, leitura de cenário e postura, antes de qualquer técnica corporal propriamente dita.
AVIT: a técnica é o último recurso, não o primeiro
Por trás da aula está uma metodologia própria, desenvolvida pelo Prof. Recchia ao longo de mais de duas décadas de trabalho com o tema: o método AVIT, sigla para Atenção, Visualização, Inteligência e, somente por último, Técnica.
A ordem não é aleatória. Para o professor, a lógica é quase uma inversão do que o senso comum espera de um curso de defesa pessoal:
“Se a mulher necessitar utilizar de uma técnica, já houve falha nos três filtros anteriores”, explica.
Atenção e Visualização dizem respeito à leitura do ambiente. Caminhar com fones de ouvido e o celular nas mãos, segundo o professor, compromete justamente os dois sentidos que permitem identificar um risco antes que ele se concretize: a visão periférica e a audição. Outro hábito comum e perigoso, segundo ele, é permanecer parado na porta do carro procurando a chave dentro da bolsa, ao sair de uma loja, da academia ou do trabalho. São gestos pequenos que, observados a tempo, evitam uma série de situações de exposição.
A Inteligência, terceiro filtro do método, trata de algo mais difícil de ensinar do que qualquer postura de defesa: a leitura de comportamento.
Romantizar a agressividade é o primeiro erro
Um dos pontos em que o professor não admite ressalvas é a forma como certos comportamentos masculinos são socialmente tolerados, e até romantizados, antes de se tornarem violência declarada.
“Aquele murro na parede, aquela agressividade com a derrota do time, aquela discussão no trânsito: na maioria dos casos de violência doméstica, as mulheres relatam que nunca tinham sofrido nada, mas identificavam estes comportamentos”, afirma.
A comparação que ele faz é direta: “O soco na parede para descontar a raiva por algo, em algum momento, a parede pode ser você.” Para o professor, essa é a parte mais difícil de qualquer curso, não a técnica física, mas o convencimento de que sinais de descontrole emocional não são traços de personalidade a serem tolerados ou justificados. As estatísticas, segundo ele, confirmam a urgência do alerta: a violência contra a mulher ocorre, na grande maioria dos casos, por homens nos quais a vítima depositava confiança.
Um problema que não escolhe classe social, mas pesa mais sobre quem tem menos
O professor é categórico ao afastar a ideia de que a violência contra a mulher seja um problema circunscrito a determinado grupo social, profissional ou racial. Ao mesmo tempo, reconhece que mulheres periféricas estão estatisticamente mais expostas ao risco, algo que o próprio Mapa do Feminicídio do MPSC confirma sob outro recorte: embora as maiores cidades catarinenses concentrem os números absolutos mais altos, são os municípios menores e mais distantes dos grandes centros, especialmente no Oeste e na região entre Lages e Curitibanos, que registram as taxas proporcionais mais altas de feminicídio do estado.
É por isso que o treinamento continuado, que nasce a partir do seminário com a OAB São José mas já corre por conta própria sob a estrutura da Jeong, segue o mesmo princípio que orienta o professor há 23 anos: oferecer a capacitação sem qualquer custo. A adesão de mais de 40 advogadas ao seminário de maio, somada ao seminário anterior com estudantes de Direito, foi o que evidenciou a demanda e motivou o professor a transformar aquele primeiro contato em algo permanente.
O TJSC e um alerta que já deveria ser desnecessário
O professor cita, como exemplo recente, a cartilha Crush Perfeito, lançada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) por meio da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid). O material, voltado especialmente a adolescentes e jovens em seus primeiros relacionamentos, reúne sinais de alerta como ciúme excessivo, chantagem emocional e controle sobre roupas, amizades ou redes sociais, além de um teste objetivo para quem está em dúvida sobre a própria relação. Em iniciativa semelhante, o MPSC mantém o Termômetro da Violência Doméstica, desenvolvido pelo Núcleo de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (NEAVID), com o mesmo objetivo de ajudar mulheres a reconhecer padrões de comportamento agressivo no parceiro.
Para o professor, esse tipo de iniciativa é positiva, mas também um sintoma preocupante:
“É uma excelente iniciativa, mas que mostra mais um gigantesco alerta. As mulheres são as maiores vítimas e muitas delas não querem enxergar.”
DefenDelas: quando o risco já virou caso
Se a cartilha do TJSC e o termômetro do MPSC ajudam a mulher a reconhecer um padrão antes da denúncia, o programa DefenDelas, da Defensoria Pública de Santa Catarina, entra em cena quando a violência já está em curso. Lançado em março deste ano, o DefenDelas é um serviço estadual de atendimento remoto que oferece orientação jurídica e apoio para a solicitação de medidas protetivas de urgência a mulheres em situação de violência doméstica e familiar, conduzido pela Coordenadoria Especializada de Defesa dos Direitos das Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cedem). Com a iniciativa, Santa Catarina se tornou o terceiro estado do país a oferecer um programa estadual de atendimento remoto exclusivo para esse público, ao lado do Paraná e do Espírito Santo. Em maio, o programa foi eleito o melhor projeto de defensorias públicas do país na categoria Enfrentamento à Violência e Direitos das Mulheres, no Prêmio Defensoria em Todos os Cantos, do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O DefenDelas reforça, sob outro ângulo, o mesmo raciocínio que sustenta a fala do professor: cartilhas educam, defensorias protegem juridicamente, mas nenhuma das duas evita o primeiro momento de risco. É justamente nesse intervalo, entre o sinal de alerta e o pedido de socorro formal, que o curso de defesa pessoal se propõe a atuar.
Mudar os homens, ensinar as mulheres a sobreviver
Ao final da conversa, o professor resume, sem rodeios, a tensão filosófica que sustenta 23 anos de trabalho ininterrupto e gratuito:
“Honestamente, a abordagem mais correta, filosoficamente, seria mudar os homens. Mas, enquanto não conseguimos criar melhor os meninos para que sejam homens mais respeitadores, precisamos ensinar as mulheres a sobreviver.”
É essa convicção, mais do que qualquer técnica de imobilização ou golpe, que sustenta o curso desde sua primeira edição. Avanços legais como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio são reconhecidos pelo professor como conquistas importantes, mas ele insiste em um ponto: a lei, por definição, atua depois que a violência já ocorreu. O trabalho da Jeong Martial Arts, nascido do convite da OAB São José, propõe-se a atuar antes.
A nova turma, iniciada na última sexta-feira, marca o início de um formato continuado que nasce da parceria com a OAB São José, mas que agora segue por conta própria, sob a estrutura da Jeong Martial Arts. É a continuidade de um compromisso que já atravessa mais de duas décadas: o de oferecer, gratuitamente, a quem precisar, as ferramentas para nunca precisar usar a parte mais visível, e menos importante, do método.










