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O General, o Diplomata e o Empresário

Parte 2: Três homens. Três visões. Uma cisão que dura até hoje e a frase que fechou todas as portas ao mesmo tempo.

Em março de 1972, Choi Hong Hi desembarcou no Canadá com a ITF na bagagem e um título não-oficial de persona non grata na Coreia do Sul.

Havia razões de sobra para o exílio. Sua relação com o presidente Park Chung-hee, que havia chegado ao poder por golpe militar em 1961, era de antagonismo mútuo e crescente. Park queria controle sobre o taekwondo como ferramenta de projeção nacional. Choi queria controle sobre o taekwondo como projeto pessoal. Os dois eram, em temperamento, notavelmente parecidos: militares de convicção rígida, com pouca tolerância para quem discordasse. Exatamente por isso, nunca poderiam compartilhar o mesmo tatame.

Há uma versão alternativa para o exílio e o próprio general Chae Myung-shin, que foi o primeiro presidente da Associação Coreana de Taekwondo na era WTF, a menciona: irregularidades financeiras no período em que Choi serviu como embaixador na Malásia. Choi nunca confirmou. Negou. Mas a versão persiste nos bastidores do taekwondo até hoje.

O que é fato é que, um ano depois do exílio de Choi, Park Chung-hee deu a resposta institucional que precisava: em 1973, criou a Federação Mundial de Taekwondo (WTF), colocando à frente dela um homem que havia sido assistente do chefe de segurança presidencial.

O nome dele era Kim Un-yong.

O homem que levou o taekwondo para as Olimpíadas

Se Choi Hong Hi foi o arquiteto do taekwondo como arte, Kim Un-yong foi seu engenheiro comercial. Fluente em inglês, habilidoso em política esportiva internacional e absolutamente implacável nos bastidores do Comitê Olímpico Internacional, Kim transformou uma arte marcial nascida em dojangs militares num esporte olímpico.

O caminho não foi curto. A WTF foi fundada em 1973. O reconhecimento do COI veio em 1980. A demonstração olímpica em Los Angeles, em 1984. Em Seul, em 1988. A modalidade oficial apenas em Sydney, no ano 2000. Quase três décadas de trabalho diplomático, nos bastidores, em idiomas que a maioria dos mestres não falava.

Kim Un-yong foi membro do COI a partir de 1986. Vice-presidente em 1992. Presidente do Comitê Olímpico Sul-Coreano. Presidente da GAISF, a federação internacional das federações esportivas. Em certos momentos dos anos 1990, era considerado um dos homens mais poderosos do esporte mundial.

Enquanto isso, do outro lado do oceano, Choi Hong Hi construía a ITF com os recursos que tinha: uma rede de mestres leais, uma visão filosófica coerente sobre o que o taekwondo deveria ser, e a Guerra Fria como mapa de expansão. Nos países onde a WTF não chegava, o bloco comunista da Europa Oriental, depois a Coreia do Norte, a ITF plantou bandeira. Até meados dos anos 1980, a ITF tinha mais academias no mundo do que a WTF. O taekwondo que o mundo conhecia era, em sua maior parte, o taekwondo do General.

Essa proporção só inverteu quando o taekwondo entrou nas Olimpíadas.

O terceiro homem

Havia, nessa história, um terceiro personagem que raramente aparece quando se fala das federações.

Em 1962, um jovem de 25 anos chamado Lee Haeng-ung desembarcou nos Estados Unidos com um dobok, um dicionário inglês-coreano e outro coreano-inglês. Não havia mais nada na bagagem que valesse mencionar.

Sete anos depois, havia formado instrutores suficientes para fundar a ATA, American Taekwondo Association, em Nebraska. Em 1983, criou o Songahm Taekwondo, seu próprio sistema, com poomsae originais, progressão curricular estruturada, filosofia de ensino própria e um modelo de franquia que levaria, nas décadas seguintes, a mais de 1.200 academias em sete países, 200 mil alunos e um faturamento anual de 20 milhões de dólares.

Lee Haeng-ung não brigou com Choi. Não brigou com Kim. Ele simplesmente foi para um estado do interior americano e construiu o taekwondo que a Coreia não havia construído.

Para Kim Un-yong, Lee Haeng-ung era um aliado natural, e em dado momento, um ativo estratégico. O taekwondo americano era a ATA. Se a WTF quisesse dominar o mercado norte-americano, precisava de Lee. Em algum momento dos anos 1990, Kim estendeu a mão. O que foi dito exatamente nessa conversa não está registrado em nenhum documento público. O que se sabe é que houve uma promessa. Uma vice-presidência foi mencionada. E que essa promessa não se formalizou. Esse relato veio à tona em 2000, em um artigo publicado pelo jornalista Kim Jun-sung, do portal Mookas. Kim escrevia sobre a morte de Haeng Ung Lee, a quem chamou de amigo de inúmeras confidências, uma delas, o convite e uma promessa não concretizada.

Jun-sung descreveu o momento em que ficou claro que a promessa não seria cumprida, usou uma expressão que não traduz bem: disse que Lee era incapaz de administrar o próprio rosto. O homem que havia construído uma organização com a disciplina de uma corporação, que havia treinado mestres por décadas a nunca perder a compostura, esse homem não conseguiu esconder o que sentiu. Relatando uma profunda insatisfação, até mágoa com o todo poderoso Kim Un-yong.

A frase que fechou três portas

Foi nessa mesma época que Choi Hong Hi, já com a saúde fragilizada e sabendo que os anos que lhe restavam eram poucos, concedeu uma entrevista ao programa 일요스페셜 da KBS, em agosto de 2000. Disse, sem rodeios: queria ver o taekwondo unificado antes de morrer. Sonhava com um taekwondo único como símbolo da reunificação das duas Coreias.

A declaração chegou até Kim Un-yong.

Alguém perguntou ao presidente da WTF o que ele achava de uma possível unificação com a ITF do General Choi.

A resposta de Kim foi calculada, cirúrgica e definitiva:

“Para falarmos sobre unificação com a federação do General Choi, temos que falar também sobre a unificação com o taekwondo de Haeng Ung Lee.”

Uma frase. Três problemas.

As lideranças do Kukkiwon não queriam Choi: ele era politicamente tóxico, com décadas de cooperação com Pyongyang e uma persona non grata gravada no imaginário institucional sul-coreano. Não queriam Lee: absorvê-lo significava reconhecer o Songahm como sistema legítimo, o que colocaria em xeque a exclusividade do Kukkiwon como emissor de certificações. E ao vincular os dois numa única resposta, Kim havia tornado cada problema inseparável do outro.

O resultado foi o que costuma acontecer quando uma equação tem variáveis demais para quem está na mesa: ninguém entrou.

Choi Hong Hi morreu em 15 de junho de 2002, em Pyongyang, aos 83 anos. Foi enterrado no Cemitério dos Patriotas da Coreia do Norte. O país que ele havia ajudado a fundar não o recebeu de volta.

Kim Un-yong foi preso em 2005, condenado por desvio de verbas públicas e corrupção. Renunciou ao COI. Deixou o taekwondo pela porta dos fundos.

Lee Haeng-ung morreu em 2000, em Little Rock, Arkansas. Não viu um dos seus sonhos se realizar, uma cidade inteira para todos os taekwondistas do mundo. Um lugar na Coreia do Sul. Para treinar, se preparar, estar e sentir a pátria-mãe da arte marcial. Isso aconteceu, mas é assunto para outro post.

A ITF se fragmentou em três organizações que não se reconhecem mutuamente. O Kukkiwon continua emitindo certificados. A ATA continua operando academias. E o taekwondo continua dividido.

O padrão que se repete

Em 2023, numa reunião cujos detalhes nunca foram publicados, representantes do Kukkiwon e da ATA voltaram a sentar à mesa para discutir reconhecimento mútuo de certificações. A ideia era simples, razoável, há décadas óbvia era que alunos formados no sistema Songahm pudessem obter equivalência no Kukkiwon.

A reunião não avançou.

Três décadas. Três tentativas. Três portas fechadas. O General queria unificação como legado. Kim usou a palavra como escudo. Lee esperou por uma promessa que não veio. E em 2023, alguém saiu de uma sala, pediu que não se falasse no assunto.

Às vezes a história não ensina. Ela apenas se repete com rostos diferentes.

Próximo da série: O Tatame que a Coreia Não Construiu o modelo que Lee Haeng-ung criou nos Estados Unidos e o que ele diz sobre o futuro do instrutor independente.

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