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O grito de 1919 e o espírito que entrou no dojang

Na manhã de primeiro de março de 1919, um estudante chamado Chong Jae-yong subiu ao coreto do Parque Tapgol, em Seul, e leu em voz alta um documento que ninguém tinha autorização para escrever, muito menos para ler em público.

A Declaração de Independência da Coreia tinha 1.200 caracteres em hangul clássico. Levou alguns minutos para ler. Quando terminou, a multidão gritou três vezes mansei, “dez mil anos”, o equivalente coreano de “viva”. Depois se dispersou pelas ruas.

Chong Jae-yong não era um dos trinta e três signatários da declaração. Era apenas o homem que ficou de fazer a leitura porque os outros não compareceram. Esse detalhe revela algo importante sobre o Movimento Primeiro de Março: grandioso na abrangência, improvisado na execução, e mais poderoso do que qualquer um de seus organizadores havia previsto.

Os trinta e três e o papel que ninguém deveria ter assinado

A declaração foi redigida pelo poeta e ativista Choe Nam-seon e apresentada publicamente no mesmo dia em que trinta e três líderes religiosos a assinavam num restaurante próximo ao parque, o Taehwagwan. Eram dezesseis cristãos, quinze representantes do Cheondogyo, o movimento religioso nacionalista coreano, e dois budistas. Homens de meia-idade, de formação intelectual, que entendiam perfeitamente o que a assinatura significava.

Nenhum deles estava no parque. Assinaram, tomaram chá, e telefonaram para a delegacia de polícia japonesa para informar onde estavam. Depois esperaram ser presos.

A decisão de se entregarem antes de fugir não foi covardia. Foi cálculo político. Os trinta e três queriam demonstrar ao mundo que a Coreia buscava a independência pelos meios da razão, não da violência. O presidente americano Woodrow Wilson havia proclamado o princípio da autodeterminação dos povos na Conferência de Paz de Paris. Os coreanos acreditaram, por um momento, que ele tinha intenção de aplicá-lo.

Não tinha.

O endereço físico da repressão

Os presos do Primeiro de Março tinham um destino comum. No bairro de Seodaemun, em Seul, uma prisão construída em 1908, antes mesmo da anexação formal, funcionava desde 1912 com o nome de Prisão de Seodaemun. Era a primeira prisão moderna do país, projetada segundo os padrões penitenciários ocidentais de vigilância centralizada. As alas irradiavam de um núcleo, permitindo controle quase absoluto dos detentos. Arquitetura como instrumento de poder.

Ali foram encarcerados líderes e anônimos, homens e mulheres, figuras políticas como Kim Gu e estudantes sem nome que haviam gritado mansei numa praça. No subsolo do prédio administrativo havia uma sala de tortura. No andar superior existia um pavilhão feminino específico para ativistas. Muitas das presas eram adolescentes, estudantes envolvidas no levante. (Quem quiser ver os muros que guardam essa memória, há um relato com fotografias no Café com o Careca.)

A prisão de Seodaemun não fechou em 1919. Continuou funcionando durante toda a ocupação japonesa, durante a Guerra da Coreia e durante as ditaduras militares que se seguiram à independência. Só parou de receber presos políticos em 1987, quando a Coreia do Sul redemocratizou. Em 1998, foi convertida em museu. A transformação do cárcere em memorial não apagou a dor. Organizou-a. Deu-lhe sentido público.

O que o Japão fez com um grito não violento

Nas semanas seguintes ao Primeiro de Março, o movimento se espalhou de Seul para as províncias, de cidades para aldeias, de homens para mulheres, de protestantes para católicos para camponeses sem filiação religiosa. Estimativas históricas falam em mais de um milhão de participantes ao longo de março e abril de 1919, em centenas de cidades e vilarejos. A declaração era reproduzida à mão, lida em praças, pregada nas paredes das igrejas.

A resposta japonesa foi sistemática e brutal. Nos registros compilados pelo Governo Provisório coreano em Xangai, as cifras apontam mais de 7.500 mortos, 16.000 presos e 49.000 detidos ou punidos administrativamente. Aldeias foram queimadas. Igrejas foram usadas como instrumentos de massacre.

Em 15 de abril de 1919, soldados da gendarmeria japonesa reuniram os homens adultos de Cheam-ri, vilarejo de maioria cristã na região de Hwaseong, dentro da igreja local. Fecharam as portas. Jogaram fogo no edifício. Os que tentaram sair pelas janelas foram baleados. Depois incendiaram o resto da aldeia. Missionários ocidentais chegaram às ruínas dias depois e produziram um dos primeiros documentos internacionais descrevendo o massacre. O Japão nunca o reconheceu oficialmente.

Yu Gwan-sun e o que não se dobra

Havia também Yu Gwan-sun. Tinha dezesseis anos quando organizou manifestações em Cheonan depois que os japoneses fecharam sua escola em Seul como medida de controle. Foi presa, levada para Seodaemun, torturada. Condenada a três anos. Recusou-se a parar de gritar mansei mesmo dentro da cela. Recusou-se a pedir perdão. Recusou-se a ficar quieta.

Morreu em outubro de 1920, com dezoito anos, de sequelas das torturas. Hoje é reverenciada como símbolo nacional pelo Estado sul-coreano e como mártir pelo movimento cristão coreano. À época, era apenas uma adolescente que não quis dobrar.

Sua história não cabe numa frase de moldura de academia. Mas cabe inteira no princípio que os professores de taekwondo ensinam toda semana sem saber exatamente de onde veio.

O que Samil não conseguiu, e o que conseguiu

O Movimento Primeiro de Março não produziu independência. As potências ocidentais em Paris ignoraram os apelos coreanos. Os japoneses mudaram de método mas não de objetivo: a fase mais repressora do governo militar foi sucedida pela chamada Política Cultural, a partir de 1920, que permitiu jornais em coreano, mais escolas com ensino em hangul, alguma expressão cultural. A jaula ficou menos visível. Continuou jaula.

Mas o Samil criou algo que nenhum decreto de assimilação conseguiu desfazer: uma memória coletiva de resistência não armada. Uma geração inteira cresceu sabendo que em março de 1919 um país ocupado gritou mansei nas ruas com as mãos vazias. Que uma menina de dezesseis anos desafiou o aparato colonial do Império Japonês numa cela de prisão até morrer.

Em abril de 1919, os líderes do movimento que conseguiram fugir estabeleceram o Governo Provisório da República da Coreia em Xangai. Nunca controlou território. Mas emitiu uma constituição, sustentou por vinte e seis anos a afirmação de que a Coreia era uma nação, e formou homens como Kim Gu que voltariam ao país depois.

O grito de 1919 não libertou a Coreia. Mas definiu o que significaria ser coreano enquanto a libertação não vinha.

O espírito que tem nome

No taekwondo, os cinco princípios que estruturam a formação do praticante são cortesia, integridade, perseverança, autocontrole e espírito indomável. O último, em coreano, é 불굴의 정신, bulgul-ui jeongsin. Literalmente: o espírito que não se dobra.

Esse princípio não foi inventado numa reunião de federação. Quando os fundadores das primeiras academias abriram suas portas a partir de 1944, eram homens que tinham crescido no interior de uma nação ocupada. Tinham vivido a infância e a adolescência num país onde dizer “Coreia” em vez de Chōsen era um ato político. Onde manter o nome de família era resistência. Onde Yu Gwan-sun tinha dezoito anos e morreu numa cela de Seodaemun por não querer parar de gritar.

O bulgul-ui jeongsin que os professores ensinam hoje tem textura histórica específica. Não é uma abstração filosófica importada de escritura budista. É a destilação de uma geração que aprendeu, da maneira mais cara possível, o que significa não se dobrar.

O branco do dobok, que os instrutores muitas vezes explicam como símbolo de pureza ou começo, tem outro peso na tradição coreana: é a cor do luto, da perda, da resistência silenciosa de um povo que por séculos usou branco porque não lhe restava mais nada a perder. Quando um aluno coloca o dobok pela primeira vez, está vestindo algo que carrega mais de um século de história, mesmo que ainda não saiba disso.

O Sabunim que sabe disso ensina diferente.

Próximo artigo da série: Os homens que construíram os kwans, e o Japão que os formou sem querer.

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