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O Tatame que a Coreia Não Construiu

Parte 3: Lee Haeng-ung chegou aos Estados Unidos com um dobok e dois dicionários. O que ele construiu nas décadas seguintes é uma lição que o taekwondo ainda não aprendeu direito.

Existe uma pergunta que Lee Haeng-ung fez publicamente e que nenhuma federação respondeu de forma satisfatória:

“Por que no país de origem do taekwondo os instrutores dirigem vans para buscar crianças, enquanto nos Estados Unidos os pais trazem os filhos até a academia?”

A pergunta parece simples. Não é.

Ela toca num problema que não é logístico, não é cultural, não é de infraestrutura. É um problema de identidade. O instrutor que dirige a van não se enxerga como profissional de alto valor e o mercado ao redor dele confirmou essa percepção ao longo de décadas, pagando pouco, exigindo muito e tratando a academia de artes marciais como uma atividade entre o clube esportivo e o serviço social.

Lee Haeng-ung resolveu esse problema não com manifesto, não com federação e não com política pública. Resolveu construindo um produto.

O problema que ele encontrou

Quando chegou aos Estados Unidos em 1962, Lee se deparou com um taekwondo que funcionava bem enquanto os alunos eram novos. As primeiras semanas eram fascinantes, movimentos estranhos, vocabulário coreano, uma estética completamente diferente de qualquer coisa que um americano do Meio-Oeste havia visto. Mas depois de alguns meses, o encanto murchava.

O problema era o poomsae. Os poomsae disponíveis na época eram tecnicamente pobres para quem aprendia rápido. Um aluno com boa coordenação decorava a forma em dois dias. Depois disso, o que havia para aprender era a mesma forma, de novo, mas melhor. Para muitos americanos, isso não era suficiente.

Havia um segundo problema, mais sutil: os movimentos praticados nos poomsae não apareciam no combate. O aluno treinava formas com técnicas de mão que nunca usava quando lutava, e aprendia chutes no sparring que nunca via na forma. A teoria e a prática existiam em universos paralelos.

E havia um terceiro problema, o mais grave de todos: pessoas se machucavam. O modelo de treino intensivo, voltado para competição e tolerante com contato pesado, produzia lesões que afastavam alunos, especialmente adultos com família, trabalho e histórico ortopédico.

Cada uma dessas três coisas reduzia o número de alunos. Menos alunos, menos receita. Menos receita, instrutor mais pobre. Instrutor mais pobre, academia mais precária. Academia mais precária, menos alunos.

Lee Haeng-ung passou quase vinte anos quebrando esse ciclo.

A solução que ele construiu

Em 1972, publicou o primeiro ATA Instructor Kit, um manual de ensino que era, na prática, o primeiro currículo sistematizado do taekwondo americano. Não era apenas uma lista de técnicas. Era um documento que traduzia os objetivos filosóficos da arte em valores que a sociedade americana reconhecia e pagava para ter: foco, perseverança, autoconfiança, integridade, lealdade, autocontrole.

Doze virtudes. Nomeadas. Ensinadas. Avaliadas.

Em 1983, foi mais longe. Numa cerimônia no topo de uma montanha no Arkansas, com trezentos alunos presentes, o tipo de teatralidade que um fundador permite a si mesmo uma vez na vida, Lee apresentou o Songahm Taekwondo. O nome combinava dois símbolos: o pinheiro, árvore do estado onde havia fixado raízes, e a pedra, referência ao nome da cidade onde construiu sua sede.

Era um sistema inteiramente novo, com poomsae originais que integravam as técnicas praticadas no sparring, com graduações ampliadas de 9 coloridas a 9 níveis de preta, com armas integradas ao currículo, e com um princípio central que parecia óbvio mas raramente havia sido aplicado: o aprendizado deveria ser divertido, seguro e formador de caráter, nessa ordem.

O resultado, duas décadas depois: 1.200 academias franqueadas, 200 mil alunos, 3 mil instrutores, faturamento anual de 20 milhões de dólares. A ATA era, nos anos 1990, a maior fonte de renda do estado do Arkansas, superando a Walmart depois da morte de Sam Walton.

Seus instrutores ganhavam, em média, entre sete e dez mil dólares por mês, líquidos, depois de todas as despesas. O equivalente, à época, ao salário de um médico ou advogado americano.

O modelo que ele criou

Para entender por que o modelo da ATA funcionou, é preciso entender o que Lee Haeng-ung percebeu que a Coreia não havia percebido: competição e escola são produtos diferentes, com mercados diferentes, e tentar servir aos dois ao mesmo tempo com o mesmo produto é uma receita para não servir bem a nenhum.

Ele nomeou essa distinção com clareza:

Taekwondo de competição: voltado para o atleta de elite. Exige aptidão física fora da média, tolerância a lesões, disponibilidade de tempo para treino intensivo. Serve uma fração pequena da população.

Taekwondo de dojang: voltado para a vida. Pode ser praticado dos três aos oitenta anos. Produz benefícios físicos, cognitivos e de caráter que os pais pagam para ver nos filhos. É um produto de educação, não de esporte.

A Coreia investiu décadas construindo o primeiro. Lee Haeng-ung passou a vida construindo o segundo.

O que o diferencia não é apenas a filosofia, é o modelo de negócio que sustenta essa filosofia. Na ATA, exames de cor ficavam integralmente com o instrutor local. Exames de faixa preta 1 a 3 dan eram delegados aos diretores regionais. A sede central só tocava em promoções acima do 4 dan. Para avançar do 4 ao 5 dan, o instrutor precisava ter 500 alunos. Para o grau de mestre (6 dan), o requisito incluía 1.000 alunos, contribuição documentada à comunidade local e um período de nove dias de jejum.

Era um sistema que usava a hierarquia da arte marcial como estrutura de carreira para o profissional. Quanto mais você avançava, mais você provava que sabia ensinar, não apenas que sabia lutar.

O que isso tem a ver com você

Se você é instrutor de taekwondo no Brasil e está lendo este texto, há uma probabilidade razoável de que você reconheça alguns dos problemas que Lee Haeng-ung encontrou nos anos 1960 na América.

Alunos que chegam entusiasmados e somem depois de alguns meses. Poomsae que não conectam com o sparring. Mensalidades que não pagam as contas. Federações que cobram por cada certificado e decidem as regras sem perguntar quem está no tatame. A sensação de que você está num mercado que não sabe quanto vale o que você faz.

Nada disso é novo. Nada disso é exclusivamente brasileiro. É a condição estrutural do instrutor de taekwondo em qualquer país que não resolveu o que Lee Haeng-ung resolveu: separar o produto de formação do produto de competição, construir um currículo que sustente o aluno por anos, e tratar a academia como negócio sem perder a alma da arte.

A cisão entre ITF e WTF, entre o taekwondo do General e o taekwondo olímpico, entre o Kukkiwon e a ATA, não é apenas uma questão política ou histórica. É um reflexo de uma pergunta que nunca foi respondida de forma unificada: o que o taekwondo está vendendo?

Choi Hong Hi dizia: estou vendendo uma filosofia de vida, uma arte marcial que transcende fronteiras políticas e ideológicas.

Kim Un-yong dizia: estou vendendo um esporte olímpico, uma ferramenta de poder soft da Coreia no mundo.

Lee Haeng-ung dizia: estou vendendo educação de caráter, um produto que os pais americanos querem comprar para os filhos.

Os três estavam certos. Os três estavam falando de produtos diferentes para mercados diferentes. E porque nunca conseguiram resolver isso numa mesa, cada praticante do mundo herdou a confusão e cada instrutor independente paga esse preço todo mês quando vai fechar o caixa.

O tatame que ainda está por construir

Lee Haeng-ung morreu em 2000 em Little Rock, Arkansas. A ATA continua operando. O Grand Master M.K. Lee, seu sucessor, mantém o sistema que o fundador construiu.

Muitas vezes já se ventilou algum nível de aproximação das instituições. Reconhecimento mútuo de certificados, no caso dos Estados Unidos, alguns mestres da ATA fizeram parte do time de preparadores da seleção paraolímpica. Num raríssimo momento de cooperação. No mais, são desfiles de preconceito e afastamento sem nenhum fundamento racional. Outro dia, um faixa preta do Kukkiwon mencionando à outros sua estranheza ao assitir uma aula de Songahm, onde as técnicas são faladas na língua nativa do país onde se treina. “Onde está coreano, isso não pode ser taekwondo”, disse ele com tom de indignação e deboche. Não pecisaram cinco minutos para a teoria desandar como uma maionese caseira mal feita. No aquecimento do treino, este mesmo faixa preta foi chamado a contar os polichinelos de abertura. Hana. Tul. Set. Ele não chegou ao quatro.

Há algo quase poético nessa persistência. Três décadas de tentativas, três gerações de lideranças, e a divisão continua. Não porque as pessoas sejam especialmente mesquinhas ou especialmente burras. Mas porque cada organização construiu, ao longo dos anos, uma identidade que depende parcialmente da diferença em relação às outras. Unificar significaria redefinir quem cada uma é, e isso é mais difícil do que assinar um protocolo.

O que a história de Lee Haeng-ung ensina não é que você precisa de uma federação melhor. É que você não precisa esperar por ela.

O tatame que a Coreia não construiu foi construído no Arkansas por um homem com um dobok e dois dicionários. Sem apoio institucional. Sem orçamento estatal. Sem a legitimidade do Kukkiwon ou a filosofia da ITF.

Com metodologia. Com produto. Com a convicção de que ensinar é uma profissão que merece ser tratada como tal.

Esse tatame ainda está por construir em muitos lugares do mundo. Inclusive aqui.

Esta foi a terceira e última parte da série A Herança Dividida. As partes anteriores estão disponíveis no arquivo do The Sabunim.

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