Parte 1: Como uma palavra dita por um presidente em 1954 mudou a história das artes marciais e por que a certidão de nascimento do taekwondo ainda é disputada
Era setembro de 1954. O general Choi Hong Hi ficou parado enquanto seu subordinado, o tenente Nam Tae-hi, posicionava as mãos sobre uma pilha de treze telhas empilhadas.
Havia autoridades presentes. Havia câmeras. Havia o presidente Syngman Rhee, o homem que havia sobrevivido ao exílio, à ocupação japonesa, à guerra civil e à intervenção das superpotências para se tornar o primeiro chefe de Estado da República da Coreia. Um homem que não se impressionava facilmente.
Nam Tae-hi respirou. Desceu a mão.
As treze telhas se partiram de uma vez.
O presidente Rhee aplaudiu e disse, para quem estava perto o suficiente para ouvir:
“Isso é o Taekkyon que vem desde os tempos antigos. Ensinem para todo o exército.”
Choi Hong Hi ouviu aquela frase e não esqueceu mais. Não porque fosse verdade, o que Nam Tae-hi havia demonstrado era uma síntese de karatê e kwonbeop, não o Taekkyon das ruas de Seul. Mas porque naquela palavra estava uma oportunidade que ele havia perseguido durante anos: dar a uma arte marcial ainda sem nome definitivo a dignidade de uma identidade nacional.
Nos meses seguintes, Choi e Nam se debruçaram sobre dicionários de hanja, vasculhando caracteres que pudessem capturar o que aquela arte fazia: chutava, perfurava, pisoteava, golpeava. O caractere tae (跆) — pisar, chutar, saltar — estava lá. O gwon (拳) — punho, soco — também. E o do (道), o caminho, a via, que os japoneses já haviam aplicado ao judô e ao kendô, transformando técnicas de combate em filosofias de vida.
Taekwondo.
A palavra existia. Faltava que o mundo a aceitasse.
O problema de nomear o que outros já nomearam
Para entender o que Choi Hong Hi enfrentou, é preciso lembrar o que era o cenário das artes marciais coreanas em meados dos anos 1950. A Coreia havia sido colônia japonesa por 35 anos. Muitos dos grandes mestres da época haviam aprendido karatê no Japão e trazido de volta para a península. Os dojangs chamavam o que ensinavam de tangsoodo (당수도) ou gongsudo (공수도), transliterações coreanas de karate-do. O karatê, portanto, não era o inimigo, era a base.
Propor um novo nome era politicamente arriscado. Significava dizer aos mestres civis que o que eles ensinavam havia mudado de identidade. Alguns resistiram. O mestre Hwang Ki, que dirigia o Moo Duk Kwan, insistiu em tangsoodo até o fim. Outros simplesmente não queriam ser engolidos por um general do exército que havia aprendido karatê shotokan no Japão e agora se apresentava como o criador de uma nova arte marcial coreana.
Choi Hong Hi era consciente de sua fragilidade. Não tinha faixa preta reconhecida por nenhum dos grandes dojangs civis. O que tinha era patente militar, influência política e uma convicção que muitos descreviam como teimosia: o taekwondo precisava existir como nome, e ele seria o responsável por fazê-lo existir.
A estratégia que usou foi, por sua própria confissão, desonesta e ele foi o único a admiti-lo. Organizou jantares, mobilizou aliados com influência junto ao governo, conseguiu que o nome chegasse até o escritório do presidente Rhee. E quando Rhee finalmente escreveu em caligrafia os caracteres de “Taekwondo Wunam”, Wunam era o pseudônimo do presidente, Choi tinha o que precisava: autoridade simbólica.
A data exata em que isso aconteceu continua sendo disputada. Choi afirmou que foi em 11 de abril de 1955, durante uma reunião de uma “comissão de nomenclatura”. O pesquisador Lee Gyeong-myeong, diretor do Instituto de Cultura do Taekwondo, analisou os documentos originais e concluiu que a data correta é 19 de dezembro de 1955, e que a reunião não era uma comissão especial, era a primeira assembleia de conselheiros da escola Chung Do Kwan. Choi, segundo Lee, suprimiu o nome do jornal e a data dos registros fotográficos para sustentar a versão que lhe era mais conveniente.
Não é uma acusação pequena. Mas também não é uma acusação que anule o resultado.
O nome que sobreviveu ao homem
O que torna essa história mais complexa e mais honesta, é que o pesquisador Lee Gyeong-myeong, mesmo contestando os detalhes da narrativa de Choi, não contesta o essencial: sem Choi Hong Hi e Nam Tae-hi, o taekwondo provavelmente não existiria como nome.
Nam Tae-hi é a figura mais apagada dessa história. Foi ele quem quebrou as treze telhas. Foi ele quem conduziu o primeiro grupo de instrução na 29ª Divisão de Infantaria. Foi ele quem ajudou Choi a construir o vocabulário técnico e as formas iniciais do que viria a ser o sistema Chang Hon, o estilo que a ITF pratica até hoje e que a ATA usou até o início da década de 1980. O próprio Lee Gyeong-myeong argumenta que o nome “taekwondo” deveria ser creditado como criação conjunta dos dois.
Nam Tae-hi sobreviveu a Choi, mas nunca ocupou o centro da narrativa oficial. Em alguns registros, aparece como “o tenente que quebrou as telhas”. Em outros, como sócio secundário de uma empresa que o sócio majoritário não quis dividir.
A história do taekwondo começa, portanto, com uma disputa sobre autoria. Isso não é acidente, é caráter. A arte que o mundo passou a praticar foi construída por homens que discordavam sobre quase tudo, exceto sobre uma coisa: que o que faziam merecia um nome próprio, e que esse nome deveria ser coreano.
Taekwondo. A palavra resistiu a todos eles. Ao general que a criou, ao tenente que a demonstrou, ao presidente que a assinou, aos mestres que resistiram a ela, às federações que a disputaram e às guerras frias que tentaram instrumentalizá-la.
Quando você se curva antes de entrar no tatame e diz “taekwondo”, está dizendo uma palavra que custou décadas de conflito para existir.
Vale a pena saber disso.
Próximo da série: O General, o Diplomata e o Empresário — como três homens dividiram o taekwondo e por que essa divisão ainda vive em cada academia do mundo.










