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Haeng Ung Lee: 25 anos de um legado que uniu Oriente e Ocidente

Há homens que atravessam o tempo como pontes. Haeng Ung Lee foi um deles.

Nascido na Coreia sob o domínio japonês, cresceu entre a dor e o orgulho de um povo que veria seu país ruir na guerra e, das cinzas, renascer como potência. Carregou essa travessia no coração e, mais tarde, nas formas precisas e simbólicas do Taekwondo, a arte marcial que o tornaria conhecido e respeitado em todos os continentes.

Lee foi talvez o homem que melhor sintetizou a ocidentalização da cultura coreana. Não por negá-la, mas por traduzi-la.

Enquanto ensinava Taekwondo e, mais tarde, desenvolvia o sistema Songahm, optou por fazê-lo na língua dos países onde se estabeleciam suas academias: inglês, espanhol, português. Era seu modo de tornar acessível o corpo da técnica. Mas a alma, essa, ele preservou em coreano, nas reverências, nas bandeiras, nos símbolos e nos ritos que carregam o espírito de Joseon, a antiga Coreia.

Mesmo radicado nos Estados Unidos, nunca se desligou de sua terra.

No Arkansas, onde fincou a sede de sua organização, durante as edições do Mundial de Songahm Taekwondo, celebra-se uma data especial conhecida como “Dia do Grand Master Lee, é celebrado até hoje com o hasteamento de uma bandeira branca com trigramas e o taeguk, lado a lado com a bandeira americana. Era o retrato daquilo que ele se tornou: um homem entre dois mundos.

Lee conduziu dezenas de milhares de estudantes em peregrinações à Coreia do Sul. Cada viagem era uma volta às origens, um gesto de devoção. De pé no solo que o viu nascer, falava com orgulho de ser um filho de Joseon.

Essa herança foi transmitida também aos irmãos Son Ho, In Ho e Mal Kun Lee, que mantêm vivo o propósito de ensinar o Taekwondo não apenas como técnica, mas como expressão viva de uma civilização.

Nos anos 1990, tentou levar seu sistema Songahm de volta à Coreia. Era o sonho de fechar o ciclo, de devolver à origem uma nova forma de arte que brotara do mesmo espírito.

Mas o destino lhe impôs barreiras: a crise econômica asiática e a resistência de um meio ainda fechado ao que parecia “americano demais”. Durante muito tempo, Haeng Ung Lee foi visto como um coadjuvante na história do Taekwondo, um mestre do exílio, um inovador que ousara demais.

Hoje, com o distanciamento do tempo, é possível enxergar o contrário.

Lee criou um sistema ocidental mais coreano do que muitos estilos nascidos em Seul. Suas escolas, espalhadas pela América Latina, ainda respiram o mesmo senso de hierarquia, respeito e disciplina inspirados no neoconfucionismo coreano, ainda que as palavras de comando sejam em espanhol ou português.

Cada vez que visito academias, escolas e clubes de Taekwondo espalhados pela América Latina, espanto-me com essa sutileza. As escolas ocidentalizadas parecem mais com a Coreia do Sul que conheci em minhas viagens ao país.

Outro dia, li um jornalista coreano escrever algo parecido, embora o texto marcasse precisamente 25 anos no passado. Era um artigo publicado por ocasião da morte de Haeng Ung Lee. Dizia que o trabalho de Lee foi, em última análise, preservar a cultura e cuidar da história da Coreia do Sul com mais zelo do que muitas outras entidades.

É um paradoxo que só os grandes mestres conseguem produzir: um método internacional que conserva, intacta, a alma oriental.

Apego-me a uma frase de Lee: “O Taekwondo é uma família, são muitas ramificações, mas um só sobrenome.” Sempre me pareceu clara a sua intenção de manter uma conexão, ainda que preservasse em absoluto sua autonomia.

Haeng Ung Lee chamava o Songahm de a segunda onda da Coreia.

Uma alusão direta ao Chung Do Kwan, o kwan que o formou. Ele acreditava que sua arte seria a ponte para uma nova fase da cultura coreana, uma cultura que, pouco tempo depois, o mundo conheceria como Hallyu, a onda coreana.

Lee não viveu para ver essa maré se espalhar pelo planeta. Mas, em cada faixa branca que se curva diante de uma bandeira coreana em academias do mundo inteiro, seu sonho ainda se manifesta. Talvez, no futuro, possamos dizer que seu gesto e sua persistência contribuíram para que a cultura coreana fosse tão bem aceita e consumida nas Américas.

Afinal, cada reverência é um pequeno aceno à terra que ele nunca deixou e a prova de que o homem que levou a Coreia do Sul para o Ocidente também ensinou o Ocidente a reverenciar a Coreia do Sul.

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