Uma sobrevivente, um sistema de crueldade organizada, e os lugares de Seul que carregam essa memória
Lee Yong-soo tem 97 anos. Na sexta-feira, ela esteve na cerimônia realizada no Kim Koo Museum & Library, em Seul, para marcar o Dia Nacional de Memória às Vítimas da Escravidão Sexual Militar do Japão. Vestida de hanbok rosa, foi amparada até seu lugar, prestou continência à bandeira e, em determinado momento, cobriu o rosto com as mãos ao ouvir 고향의 봄 (Gohyang-ui Bom), a canção folclórica coreana que descreve a saudade de uma aldeia natal em flor. A cena, simples e silenciosa, resume décadas de uma luta que a maior parte do mundo ainda desconhece em detalhe.
Para quem não cresceu com essa história, vale explicar do zero. Entre os anos 1930 e 1945, o Japão imperial organizou um sistema de exploração sexual em larga escala para suas tropas, eufemisticamente chamado de “estações de conforto”. Estima-se que até 200 mil mulheres, a maioria coreanas, mas também chinesas, filipinas, indonésias e de outras regiões ocupadas, foram levadas à força, muitas ainda adolescentes, e submetidas a violência sexual sistemática durante anos. Menos de 10% dessas mulheres teriam sobrevivido ao período. O tema só começou a ganhar espaço público em 1991, quando Kim Hak-sun se tornou a primeira sobrevivente a testemunhar abertamente, quebrando um silêncio imposto tanto pela vergonha social quanto pelo apagamento histórico deliberado.
Lee tinha catorze anos quando foi retirada de casa, em Daegu, em 1942. Testemunhou pela primeira vez em 1992 e, desde então, transformou a própria dor em ativismo. Em 2007, foi uma das primeiras sobreviventes a depor perante o Congresso dos Estados Unidos, relatando ter sido arrastada à força para um quarto trancado, espancada e agredida com uma faca. Anos depois, quando a Coreia do Sul e o Japão fecharam um acordo em 2015 sem consultar as vítimas, Lee confrontou publicamente autoridades do próprio governo coreano, sentindo que fora apagada mais uma vez. Ela é hoje uma das cinco sobreviventes reconhecidas oficialmente pelo governo sul-coreano, e a única ainda em condições de falar sobre o que viveu. Em entrevista recente à Herald Business, reafirmou seu maior pedido: que a Coreia do Sul leve formalmente o Japão à Corte Internacional de Justiça.



O quadrinista Keum Suk Gendry-Kim reconstruiu essa rotina em “Grama” (Grass), quadrinho-testemunho publicado na Coreia em 2017 e traduzido ao inglês por Janet Hong, a partir de longas entrevistas com Lee Ok-sun, outra sobrevivente coreana levada à força ainda adolescente. No livro, Lee Ok-sun descreve jornadas que começavam ao amanhecer e só terminavam ao anoitecer, num alojamento onde novos batalhões de soldados se revezavam ao longo do dia. Entre um grupo e outro, o tempo disponível para se lavar e se recompor era mínimo, insuficiente até para processar o que acabara de acontecer, antes que a fila seguinte já estivesse à porta. É esse tipo de detalhe, mais do que qualquer número ou estatística, que aproxima o leitor da dimensão real do que essas mulheres viveram: não episódios isolados de violência, mas uma rotina cronometrada, imposta dia após dia.
Em dezembro de 2011, no marco da milésima manifestação de quarta-feira, um protesto semanal iniciado em 1992 em frente à antiga embaixada japonesa em Seul e considerado o mais longevo do mundo em torno de um único tema, foi inaugurada a primeira Sonyeosang, a “Estátua da Paz”. Criada pelos escultores Kim Seo-kyung e Kim Eun-sung, ela representa uma jovem sentada, de cabelos curtos e irregulares, com um pássaro no ombro simbolizando a paz e uma cadeira vazia ao lado, reservada a quem não sobreviveu para se sentar ali. Fixada diante da embaixada, ela encara o prédio como quem ainda espera pelo pedido de desculpas que nunca veio. De lá para cá, mais de vinte réplicas se espalharam por cidades coreanas e por outros países, de Busan a Berlim, cada uma reacendendo, vez ou outra, tensões diplomáticas entre Seul e Tóquio. Em agosto de 2017, uma variação ainda mais silenciosa do mesmo símbolo passou a circular sentada em bancos de ônibus pelo centro de Seul, num projeto batizado “O sonho perdido das meninas”. Ali, a estátua deixa de ser um monumento fixo e vira passageira: a menina a caminho de algum lugar que nunca vai chegar, o trajeto de volta para casa que ela nunca completou.




Há também um lugar em Seul que carrega essa história de um modo mais silencioso, e que visitei pessoalmente durante minha pesquisa de campo na Coreia. Chama-se Gi-eok-ui Teo, o “Local de Memória”, inaugurado em 2016 nas encostas do monte Namsan, no distrito de Jung. O espaço ocupa exatamente o terreno onde ficava a residência oficial do Residente-Geral japonês, a mais alta autoridade colonial na Coreia a partir de 1905, e que depois se tornou sede do Governador-Geral até 1939. No local, as ruínas da antiga construção e uma estátua do diplomata Hayashi Gonsuke, uma das figuras centrais na subordinação política da Coreia naquele período, foram deliberadamente invertidas e cravadas no chão, como um gesto simbólico de memória revirada. É um dos poucos memoriais no mundo que também presta homenagem às vítimas da escravidão sexual japonesa dentro do próprio território de onde partiu o poder que as vitimou.
Para quem estuda as artes marciais coreanas dentro de seu contexto histórico mais amplo, esses registros, o testemunho de Lee Yong-soo, o relato de Lee Ok-sun, as estátuas e o terreno de Namsan, formam um mesmo tecido. A história da Coreia do século XX não se resume a tratados e datas. Ela é feita de corpos, de resistência e de nomes que insistem em não ser esquecidos.
Lee Yong-soo: la cicatriz que Corea se niega a olvidar
Una sobreviviente, un sistema de crueldad organizada, y los lugares de Seúl que cargan esa memoria
Lee Yong-soo tiene 97 años. El viernes estuvo presente en la ceremonia realizada en el Kim Koo Museum & Library, en Seúl, para conmemorar el Día Nacional de Memoria a las Víctimas de la Esclavitud Sexual Militar de Japón. Vestida con un hanbok rosa, fue acompañada hasta su asiento, saludó a la bandera y, en un momento de la ceremonia, cubrió su rostro con las manos al escuchar 고향의 봄 (Gohyang-ui Bom), la canción folclórica coreana que describe la añoranza de una aldea natal en flor. La escena, simple y silenciosa, resume décadas de una lucha que buena parte del mundo aún desconoce en detalle.
Para quienes no crecieron con esta historia, vale la pena explicarla desde el principio. Entre los años 1930 y 1945, el Japón imperial organizó un sistema de explotación sexual a gran escala para sus tropas, eufemísticamente llamado “estaciones de confort”. Se estima que hasta 200 mil mujeres, en su mayoría coreanas, pero también chinas, filipinas, indonesias y de otras regiones ocupadas, fueron llevadas por la fuerza, muchas todavía adolescentes, y sometidas a violencia sexual sistemática durante años. Menos del 10% de esas mujeres habría sobrevivido al periodo. El tema recién comenzó a ganar espacio público en 1991, cuando Kim Hak-sun se convirtió en la primera sobreviviente en testimoniar abiertamente, rompiendo un silencio impuesto tanto por la vergüenza social como por el borramiento histórico deliberado.
Lee tenía catorce años cuando fue sacada de su casa, en Daegu, en 1942. Testimonió por primera vez en 1992 y, desde entonces, convirtió ese dolor en activismo. En 2007, fue una de las primeras sobrevivientes en declarar ante el Congreso de Estados Unidos, relatando haber sido arrastrada por la fuerza hacia un cuarto cerrado con llave, golpeada y agredida con un cuchillo. Años después, cuando Corea del Sur y Japón cerraron un acuerdo en 2015 sin consultar a las víctimas, Lee confrontó públicamente a autoridades de su propio gobierno, sintiendo que había sido borrada una vez más. Hoy es una de las cinco sobrevivientes reconocidas oficialmente por el gobierno surcoreano, y la única en condiciones de hablar sobre lo que vivió. En una entrevista reciente con Herald Business, reafirmó su mayor pedido: que Corea del Sur lleve formalmente a Japón ante la Corte Internacional de Justicia.
El historietista Keum Suk Gendry-Kim reconstruyó esta rutina en “Hierba” (Grass), novela gráfica-testimonio publicada en Corea en 2017 y traducida al inglés por Janet Hong, a partir de largas entrevistas con Lee Ok-sun, otra sobreviviente coreana llevada por la fuerza siendo todavía adolescente. En el libro, Lee Ok-sun describe jornadas que empezaban al amanecer y solo terminaban al anochecer, en un alojamiento donde nuevos batallones de soldados se turnaban a lo largo del día. Entre un grupo y otro, el tiempo disponible para lavarse y recomponerse era mínimo, insuficiente incluso para procesar lo que acababa de suceder, antes de que la siguiente fila ya estuviera en la puerta. Es ese tipo de detalle, más que cualquier número o estadística, el que acerca al lector a la dimensión real de lo que estas mujeres vivieron: no episodios aislados de violencia, sino una rutina cronometrada, impuesta día tras día.
En diciembre de 2011, en el marco de la manifestación de los miércoles número mil, una protesta semanal iniciada en 1992 frente a la antigua embajada japonesa en Seúl y considerada la más longeva del mundo en torno a un solo tema, se inauguró la primera Sonyeosang, la “Estatua de la Paz”. Creada por los escultores Kim Seo-kyung y Kim Eun-sung, representa a una joven sentada, de cabello corto e irregular, con un pájaro en el hombro que simboliza la paz y una silla vacía al lado, reservada para quienes no sobrevivieron para sentarse allí. Fija frente a la embajada, mira el edificio como quien todavía espera la disculpa que nunca llegó. Desde entonces, más de veinte réplicas se han repartido por ciudades coreanas y por otros países, de Busan a Berlín, reavivando cada tanto tensiones diplomáticas entre Seúl y Tokio. En agosto de 2017, una variación aún más silenciosa del mismo símbolo empezó a circular sentada en los asientos de autobuses por el centro de Seúl, en un proyecto llamado “El sueño perdido de las niñas”. Allí, la estatua deja de ser un monumento fijo y se convierte en pasajera: la niña en camino a algún lugar al que nunca llegará, el trayecto de regreso a casa que nunca completó.
Hay también un lugar en Seúl que carga esta historia de un modo más silencioso, y que visité personalmente durante mi investigación de campo en Corea. Se llama Gi-eok-ui Teo, el “Lugar de Memoria”, inaugurado en 2016 en las laderas del monte Namsan, en el distrito de Jung. El espacio ocupa exactamente el terreno donde estaba la residencia oficial del Residente General japonés, la máxima autoridad colonial en Corea a partir de 1905, que luego se convirtió en sede del Gobernador General hasta 1939. En el lugar, las ruinas de la antigua construcción y una estatua del diplomático Hayashi Gonsuke, una de las figuras centrales en la subordinación política de Corea en ese periodo, fueron deliberadamente invertidas y clavadas en el suelo, como un gesto simbólico de memoria revirtiendo el poder. Es uno de los pocos memoriales del mundo que también rinde homenaje a las víctimas de la esclavitud sexual japonesa dentro del propio territorio desde donde partió el poder que las victimizó.
Para quienes estudian las artes marciales coreanas dentro de su contexto histórico más amplio, estos registros, el testimonio de Lee Yong-soo, el relato de Lee Ok-sun, las estatuas y el terreno de Namsan, forman un mismo tejido. La historia de Corea del siglo XX no se reduce a tratados y fechas. Está hecha de cuerpos, de resistencia y de nombres que se niegan a ser olvidados.
Lee Yong-soo: The Scar Korea Refuses to Forget
One survivor, a system of organized cruelty, and the places in Seoul that still carry this memory
Lee Yong-soo is 97 years old. On Friday, she attended the ceremony held at the Kim Koo Museum & Library in Seoul marking the Memorial Day for Victims of Japan’s Military Sexual Slavery. Dressed in a pink hanbok, she was helped to her seat, saluted the flag, and at one point covered her face with her hands while listening to 고향의 봄 (Gohyang-ui Bom), the Korean folk song about longing for one’s flowering hometown. The scene, simple and quiet, sums up decades of a struggle much of the world still barely understands.
For readers who did not grow up with this history, it is worth explaining from the start. Between the 1930s and 1945, Imperial Japan organized a large-scale system of sexual exploitation for its troops, euphemistically called “comfort stations.” An estimated 200,000 women, most of them Korean but also Chinese, Filipino, Indonesian, and from other occupied territories, were taken by force, many still teenagers, and subjected to systematic sexual violence for years. Fewer than 10 percent of these women are believed to have survived the period. The subject only began entering public discourse in 1991, when Kim Hak-sun became the first survivor to testify openly, breaking a silence imposed by both social shame and deliberate historical erasure.
Lee was fourteen when she was taken from her home in Daegu in 1942. She first testified in 1992 and has since turned that pain into decades of activism. In 2007, she was among the first survivors to testify before the United States Congress, describing being dragged into a locked room, beaten, and threatened with a knife. Years later, when South Korea and Japan struck a 2015 deal without consulting the survivors, Lee publicly confronted officials from her own government, feeling erased once again. She is now one of five surviving victims officially recognized by the South Korean government, and the only one currently well enough to speak about what she experienced. In a recent interview with Herald Business, she reaffirmed her greatest wish: for South Korea to formally bring Japan before the International Court of Justice.
Cartoonist Keum Suk Gendry-Kim reconstructed this routine in “Grass,” a testimonial graphic novel published in Korea in 2017 and translated into English by Janet Hong, based on long interviews with Lee Ok-sun, another Korean survivor taken by force while still a teenager. In the book, Lee Ok-sun describes days that began at dawn and only ended at nightfall, in barracks where new battalions of soldiers rotated through over the course of each day. Between one group and the next, the time available to wash and compose herself was minimal, barely enough to process what had just happened before the next line was already at the door. It is this kind of detail, more than any number or statistic, that brings the reader closer to the real scale of what these women endured: not isolated episodes of violence, but a timed routine, imposed day after day.
In December 2011, marking the 1,000th Wednesday demonstration, a weekly protest that began in 1992 in front of the former Japanese embassy in Seoul and is considered the longest-running single-issue protest in the world, the first Sonyeosang, or “Statue of Peace,” was unveiled. Created by sculptors Kim Seo-kyung and Kim Eun-sung, it depicts a seated young girl with short, uneven hair, a bird on her shoulder symbolizing peace, and an empty chair beside her, reserved for those who did not survive to sit there. Fixed in place facing the embassy, she stares at the building as though still waiting for the apology that never came. Since then, more than twenty replicas have spread across Korean cities and other countries, from Busan to Berlin, periodically reigniting diplomatic tension between Seoul and Tokyo. In August 2017, a quieter variation of the same symbol began riding city bus seats through central Seoul, in a project called “The Girls’ Lost Dream.” There, the statue stops being a fixed monument and becomes a passenger instead, a girl on her way somewhere she will never arrive, the trip home she never finished.
There is also a place in Seoul that carries this history in a quieter way, one I visited personally during my field research in Korea. It is called Gi-eok-ui Teo, the “Site of Memory,” opened in 2016 on the slopes of Namsan, in Jung District. The site occupies the exact ground where the official residence of the Japanese Resident-General once stood, the highest colonial authority in Korea from 1905 onward, which later became the seat of the Governor-General until 1939. There, the ruins of the original building and a statue of the diplomat Hayashi Gonsuke, one of the central figures behind Korea’s political subjugation in that period, were deliberately inverted and set into the ground, a symbolic gesture of memory turned upside down. It is one of the few memorials in the world that also honors the victims of Japan’s sexual slavery within the very ground from which the power that victimized them once ruled.
For those who study Korean martial arts within their broader historical context, these records, Lee Yong-soo’s testimony, Lee Ok-sun’s account, the statues, and the ground at Namsan, form a single fabric. Twentieth century Korean history cannot be reduced to treaties and dates. It is made of bodies, of resistance, and of names that refuse to be forgotten.










