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Arte marcial coreana: a proibição que nunca existiu

Como uma estória foi repetida tantas vezes, associada, talvez, a uma preguiça por pesquisas e estudos levou gerações de mestres e instrutores a repetirem uma desinformação que já soa como mentira.

Por Master Arnaldo Recchia/The Sabunim

Não existe registro de um decreto japonês proibindo artes marciais coreanas. Existe, isso sim, um arquivo colonial bem preservado que mostra o contrário: judô e kendô entrando nas escolas da Coreia por decisão do próprio governo colonial. A história que se conta nos dojangs do mundo inteiro foi construída depois de 1945, e boa parte dela em 1971.

A frase aparece em manuais, em sites de federações, em apostilas de graduação e em legendas de rede social. Durante a ocupação japonesa, o Japão proibiu as artes marciais coreanas, e os coreanos passaram a treinar em segredo, em templos budistas remotos e em vilarejos de montanha, preservando na clandestinidade uma tradição milenar que ressurgiu com o taekwondo depois da libertação.

É uma história boa. Tem opressor, tem resistência, tem continuidade. O problema é que ela não sobrevive ao primeiro contato com a documentação.

O ponto foi formulado com clareza pelo pesquisador Steven D. Capener, professor da Seoul Women’s University, num artigo publicado no Korea Journal em 2016. Capener lista três razões pelas quais a alegação precisa ser rejeitada de imediato. Primeira: não existe registro algum de tal decreto emitido pelas autoridades coloniais japonesas, ainda que esses registros estejam extremamente bem preservados. Segunda: não faria sentido proibir o taekkyon pelo risco de servir à rebelião e, ao mesmo tempo, obrigar estudantes coreanos da rede pública a praticar judô e kendô, disciplinas muito mais aplicáveis ao combate real. Terceira: a mesma literatura que afirma a proibição afirma também que os japoneses forçaram os coreanos a chamar o taekkyon de karatê e a incorporar formas japonesas, o que é logicamente incompatível com a primeira alegação.

Capener observa que essa contradição não circula apenas em livros de autor. Ela foi impressa em material didático oficial, incluindo um volume sobre taekwondo publicado pelo Ministério da Educação da Coreia do Sul em 1976.

O que os coreanos efetivamente praticavam

Se houve política marcial japonesa na Coreia colonial, ela foi de introdução, não de supressão.

O caminho começa antes da anexação formal. Já em 1895, no rastro das Reformas Gabo, assessores japoneses foram incorporados à reestruturação da polícia coreana, e os cadetes da Academia de Polícia passaram a ser obrigados a aprender o kyokgeom, nome coreano do gekiken japonês, uma esgrima de sabre com espada de bambu que precedeu o kendô moderno, cujo nome só seria cunhado em 1919 e 1920. O gekiken entrou no currículo escolar geral coreano em 1906. No mesmo período, entre 1906 e 1910, formou-se na Coreia uma primeira rede de cerca de dez clubes de judô, vinculados sobretudo à ACM (Associação Cristã de Moços, a YMCA) e à polícia. Em 1918, uma associação criada dois anos antes foi inaugurada como filial coreana do Kodokan. A própria ACM viria a gerar, décadas depois, um dos kwans fundadores do taekwondo. Em 1946, Yun Byeong-in, que teria aprendido kwonbop com um instrutor chinês na Manchúria, fundou o YMCA Kwonbop-pu na sede da ACM do bairro de Jongno, em Seul. Yun desapareceu durante a Guerra da Coreia, e foi um de seus alunos mais graduados, Lee Nam-suk, quem reabriu a escola depois do conflito sob um novo nome: Chang Moo Kwan, um dos nove kwans que compõem a árvore genealógica oficial do taekwondo. Um detalhe expõe bem o padrão que este artigo documenta: embora a ACM chamasse a atividade de kwonbop, o que se ensinava ali era, na prática, majoritariamente karatê.

Depois da anexação, o processo se institucionaliza. O pesquisador Yang Jin-bang, em dissertação defendida na Universidade Nacional de Seul em 1986, situa em 1914 a entrada do judô e do kendô nos currículos das escolas públicas coreanas e japonesas, e observa algo mais incômodo para a narrativa oficial: foi esse o primeiro contato formal dos coreanos com a ideia de uma arte marcial sistematizada, porque tal conceito não existia no país antes disso.

A partir de 1931, com a invasão da Manchúria, e sobretudo a partir de 1937, com a guerra total, o currículo colonial se militariza abertamente. Estudos de história da educação registram esgrima de sabre, judô, arquearia, natação e exercícios militares como conteúdos obrigatórios em escolas secundárias da Coreia, incluindo naginata (uma lança de lâmina curva, arma tradicionalmente associada ao treinamento feminino no Japão) e arquearia para as alunas. O kendô, já sob esse nome, se tornou disciplina exigida nas escolas coreanas em 1939 e assim permaneceu até 1945.

Não se trata de um regime benigno. Trata-se de um regime que usava artes marciais japonesas como ferramenta de assimilação e de mobilização militar de corpos coloniais. Isso é o oposto de proibir artes marciais.

Havia controle e uma coisa é diferente de outra

Aqui cabe uma ressalva, porque a versão simplificada do desmentido também erra.

Não existia decreto contra artes marciais coreanas, mas existia controle administrativo sobre associações, reuniões e escolas. Quando Lee Won-kuk voltou de Tóquio em 1944, depois de estudar direito na Universidade Chuo e karatê Shotokan com Gichin Funakoshi, ele precisou de autorização do governo colonial para abrir uma escola. Os relatos convergem: o pedido foi negado duas vezes e aprovado na terceira. Em setembro de 1944 ele inaugurou o Chung Do Kwan no ginásio da escola Yongsin, em Seul.

Detalhe revelador: o que Lee pediu permissão para ensinar era karatê. E, quando a Coreia se libertou em 1945, ele foi levado a julgamento justamente por sua proximidade com os japoneses.

O regime colonial também desestimulava grandes aglomerações populares, e os festivais de aldeia eram exatamente o ambiente em que o taekkyon aparecia. Restrição a reuniões públicas é uma coisa. Perseguição a uma arte marcial nacional é outra. A confusão entre as duas é o que sustenta o mito.

O declínio começou muito antes

A parte da história que a narrativa nacionalista precisa apagar é a mais interessante para quem estuda a Coreia.

A desvalorização do marcial na península é um processo longo, interno e neoconfuciano. Ao longo da dinastia Joseon, o prestígio social migrou dos oficiais militares para os letrados civis, e o esforço físico competitivo passou a ser coisa de gente de classe baixa. O Muyedobotongji, compilado em 1790 por ordem do rei Jeongjo, é sintomático: é um manual monumental, quase todo dedicado a armas, com uma seção pequena de combate desarmado que reproduz, com pouca alteração, um manual militar chinês anterior.

As Reformas Gabo merecem um parêntese, porque aparecem aqui só como pano de fundo, mas seriam, sozinhas, matéria para outro artigo. Promulgadas entre 1894 e 1896 sob o reinado de Gojong, na esteira da Revolta Camponesa Donghak e da Primeira Guerra Sino-Japonesa, foram um pacote amplo de modernização que reestruturou de uma só vez a política, a economia, o direito e a sociedade coreanas: aboliram as castas hereditárias, extinguiram a escravidão, baniram costumes tidos como atrasados, criaram ministérios nos moldes ocidentais e desfizeram a relação tributária com a China. Historiadores ainda debatem o grau de influência japonesa por trás delas, já que o gabinete reformista teve apoio de Tóquio, mas o próprio Gojong e facções da corte alternaram entre patrocinar e sabotar o processo ao longo dos dois anos seguintes. Para o tema deste artigo, interessa um efeito colateral pouco discutido: elas desmontaram, de dentro, o aparato estatal que sustentava a cultura marcial coreana, anos antes de qualquer japonês pisar no país como poder colonial. Fica registrado aqui como sugestão de pauta futura para o Sabunim.

O desmonte institucional vem no fim do século XIX, e é obra coreana. Em 1894, as Reformas Gabo extinguiram o sistema de exames de estado, o gwageo, incluindo sua via militar, além de abolir as distinções hereditárias de classe. No mesmo ano foi dissolvido o Muyebyeolgam, o corpo de guardas de elite palaciano criado em 1630. A academia militar do Império Coreano, fundada em 1896, foi extinta em 1909. O exército central foi dissolvido em 1907, já sob protetorado japonês.

Ou seja: quando a bandeira japonesa subiu em 1910, o aparato que sustentava a cultura marcial coreana já havia sido desmontado, em boa parte por decisão de coreanos.

Quanto ao taekkyon, a evidência aponta para uma prática localizada, não nacional. No início do século XX ela sobrevivia basicamente na região da capital, e a pesquisa de Sungkyun Cho, Udo Moenig e Dohee Nam conclui que o taekkyon desapareceu entre o fim do século XIX e o começo do XX. Hwang Kee, nascido em 1914, não menciona o taekkyon no seu primeiro manual, de 1949, o documento mais antigo que sobrevive sobre artes marciais coreanas no pós-guerra. Ele lista kwonbop, tangsudo, kongsudo, jujutsu, judô e até armas de fogo, mas não o taekkyon. A explicação mais econômica é a mais simples: ele provavelmente não sabia que aquilo existia.

Os Hwarang e um constrangimento histórico

O caso dos Hwarang é ainda mais desconfortável, e é aqui que a ironia se fecha.

O missionário e pesquisador Richard Rutt, em estudo publicado em 1961, notou que os livros de história coreanos anteriores à anexação de 1910 nunca dizem mais do que muito pouco sobre os Hwarang, e registrou uma observação decisiva: muitos coreanos de meia-idade em 1961 mal tinham ouvido falar dos Hwarang antes da libertação de 1945. Rutt vai além. Ele aponta que a ideia dos Hwarang como culto militar só ganha proeminência no período em que os japoneses estavam promovendo o bushidô.

Não é coincidência. Pesquisas sobre o termo hwarangdo mostram que ele foi cunhado no período colonial, dentro da política de assimilação sintetizada no slogan naisen ittai, a tese de que Japão e Coreia formavam um só corpo. A operação consistia em identificar um equivalente coreano ao bushidô para provar que os dois povos compartilhavam a mesma espiritualidade. Depois de 1945, o conceito foi reciclado como patrimônio espiritual autenticamente coreano.

A consolidação veio com Hwarangdo yeon’gu, publicado em 1949 por Yi Seon-geun, formado em história pela Universidade Waseda, ex-diretor de uma empresa industrial japonesa na Manchúria, depois coronel do exército sul-coreano, responsável pela doutrinação ideológica de jovens soldados na Guerra da Coreia e Ministro da Educação entre 1954 e 1956. Rutt classificou o livro como um ensaio sobre o espírito Hwarang tal como ele agradava ao nacionalismo coreano nascente, com boa parte do conteúdo declaradamente especulativa.

Vale registrar o que não existe. Não há um único registro, direto ou indireto, associando os Hwarang a qualquer método de combate desarmado, seja como treinamento, seja em uso. Não há armas, armaduras, pinturas ou documentos comparáveis ao acervo material que sustenta a história dos samurais.

Essa desconexão entre a lenda e a história virou anedota de tatame. O mestre Alexandre Coelho, frequentador assíduo dos treinamentos no Kukkiwon e na Chang Moo Kwan, em Seul, contou a este escriba que certa vez perguntou a instrutores coreanos sobre os Hwarang, querendo mostrar que conhecia bem a história do país. A resposta veio em forma de risada: “Vocês ainda contam essas histórias?” Ao que parece, na terra-mãe do taekwondo essa é uma lenda superada há tempos, mas que segue encontrando terreno fértil na América Latina, sempre com gosto por uma boa novela.

O espelho japonês

É comum dizer que os japoneses, ao contrário dos coreanos, tinham suas artes marciais em alta estima e nunca as renegaram. A realidade é mais interessante.

O Japão Meiji também descartou sua classe guerreira. Os antigos samurais eram vistos nos anos 1880 como relíquia de uma era encerrada, despojados de privilégios. O bushidô como doutrina nacional é uma construção do fim do século XIX e, na formulação imperial centrada no imperador, do período posterior à Guerra Russo-Japonesa de 1904 e 1905, como demonstrou Oleg Benesch. O Dai Nippon Butokukai, entidade reguladora das artes marciais japonesas, foi fundado em Kyoto apenas em 1895. E o judô de Kano Jigoro, com uniforme, faixas e sistema kyu e dan, é uma racionalização moderna do jujutsu, não uma herança intacta.

Ou seja: o Japão não preservou uma tradição marcial ininterrupta. Ele reinventou uma, e exportou o modelo. A Coreia, depois de 1945, aplicou o mesmo procedimento ao próprio passado. Aprendeu a inventar tradição com quem a colonizou.

Embalagem criada politicamente

O nome taekwondo foi cunhado em 1955 e só se universalizou em 1965, sob a Associação Coreana de Taekwondo. A narrativa indígena consolidada, aquela dos dois mil anos, é posterior.

Em 1971, o regime de Park Chung-hee elevou o taekwondo à condição de esporte nacional. Foi então que a história precisou ser padronizada. Em 1972, o manual de Lee Chong-woo, presidente do comitê técnico da associação, apresentou o taekwondo como descendente exclusivo de subak e taekkyon, sem qualquer referência a tangsudo, kongsudo ou kwonbop, termos de origem japonesa e chinesa que dominavam a literatura anterior.

O que aconteceu com quem contestou isso é parte da história. Em 1990, o filósofo Kim Yong Ok publicou um livro afirmando sem rodeios que o que se chama de taekwondo foi feito no Japão. Ele foi retirado na última hora da conferência de abertura de um simpósio acadêmico da própria associação, e seu texto foi excluído dos anais.

E há o testemunho mais devastador de todos. Em entrevista de 2001, pouco antes de morrer, o general Choi Hong Hi admitiu que nunca aprendeu taekkyon, ao contrário do que escrevera durante décadas. Contou que ouvia histórias sobre a prática dos anciãos da aldeia, que viu Song Deok-ki uma única vez, e concluiu que o taekkyon não tinha sistema algum e não poderia ter existido na era Silla. Ele admitiu ter construído a narrativa para dar ao taekwondo a legitimidade que suas raízes no karatê japonês não ofereciam ao gosto nacionalista de Syngman Rhee.

Precisão histórica não é apologia colonial, e vale dizer isso com todas as letras.

A ocupação japonesa foi violenta e culturalmente destrutiva. A língua coreana foi restringida no ensino, nomes de família foram substituídos por nomes japoneses, e a partir de 1937 a população colonial foi mobilizada para o esforço de guerra. Os historiadores que desmontam o mito da proibição das artes marciais são, muitos deles, os mesmos que descrevem o período como assimilação forçada.

O ponto é outro, e é mais duro. A ocupação não precisava proibir artes marciais coreanas porque não havia, em escala nacional, uma arte marcial coreana organizada para proibir. O que a ocupação fez foi preencher um vácuo com judô, kendô e, depois, karatê, e formar a geração que fundaria os kwans.

Por que insistir nisso

Existe uma tentação compreensível em torno da história marcial: a de que a linhagem antiga confere valor à prática atual. Ela não confere.

O taekwondo esportivo, com sua evolução técnica própria, seu sistema competitivo e seu repertório de pernas que não tem paralelo em nenhuma arte japonesa, foi desenvolvido na Coreia, por coreanos, nas últimas sete décadas. É uma realização real. O paradoxo apontado por Capener é que insistir na origem milenar impede o taekwondo de reivindicar a identidade coreana que ele efetivamente construiu.

Quem repete o mito do treino clandestino nos templos não está honrando ninguém. Está apenas trocando uma história verificável por uma história confortável. E, no caso, está repetindo uma invenção de 1971 achando que defende uma tradição de milenar.

En español latino

Arte marcial coreana: la prohibición que nunca existió

Cómo una historia repetida tantas veces, sumada a la pereza por investigar y estudiar, lleva a generaciones de maestros e instructores a repetir una desinformación que ya suena a mentira.

Por Master Arnaldo Recchia/The Sabunim

No existe registro de un decreto japonés que prohibiera las artes marciales coreanas. Existe, eso sí, un archivo colonial bien preservado que muestra lo contrario: judo y kendo entrando en las escuelas de Corea por decisión del propio gobierno colonial. La historia que se cuenta en los dojangs de todo el mundo fue construida después de 1945, y buena parte de ella en 1971.

La frase aparece en manuales, en sitios de federaciones, en apuntes de graduación y en leyendas de redes sociales. Durante la ocupación japonesa, Japón prohibió las artes marciales coreanas, y los coreanos pasaron a entrenar en secreto, en templos budistas remotos y en aldeas de montaña, preservando en la clandestinidad una tradición milenaria que resurgió con el taekwondo después de la liberación.

Es una buena historia. Tiene opresor, tiene resistencia, tiene continuidad. El problema es que no sobrevive al primer contacto con la documentación.

El punto fue formulado con claridad por el investigador Steven D. Capener, profesor de la Seoul Women’s University, en un artículo publicado en el Korea Journal en 2016. Capener enumera tres razones por las cuales la afirmación debe rechazarse de inmediato. Primera: no existe registro alguno de tal decreto emitido por las autoridades coloniales japonesas, a pesar de que esos registros están extremadamente bien preservados. Segunda: no tendría sentido prohibir el taekkyon por el riesgo de que sirviera a la rebelión y, al mismo tiempo, obligar a los estudiantes coreanos de la red pública a practicar judo y kendo, disciplinas mucho más aplicables al combate real. Tercera: la misma literatura que afirma la prohibición afirma también que los japoneses obligaron a los coreanos a llamar karate al taekkyon y a incorporar formas japonesas, lo cual es lógicamente incompatible con la primera afirmación.

Capener observa que esta contradicción no circula solamente en libros de autor. Fue impresa en material didáctico oficial, incluido un volumen sobre taekwondo publicado por el Ministerio de Educación de Corea del Sur en 1976.

Lo que los coreanos efectivamente practicaban

Si hubo una política marcial japonesa en la Corea colonial, esta fue de introducción, no de supresión.

El camino comienza antes de la anexión formal. Ya en 1895, en la estela de las Reformas Gabo, asesores japoneses fueron incorporados a la reestructuración de la policía coreana, y los cadetes de la Academia de Policía pasaron a estar obligados a aprender el kyokgeom, nombre coreano del gekiken japonés, una esgrima de sable con espada de bambú que precedió al kendo moderno, cuyo nombre solo se acuñaría en 1919 y 1920. El gekiken entró en el currículo escolar general coreano en 1906. En el mismo período, entre 1906 y 1910, se formó en Corea una primera red de cerca de diez clubes de judo, vinculados sobre todo a la YMCA (Asociación Cristiana de Jóvenes) y a la policía. En 1918, una asociación creada dos años antes fue inaugurada como filial coreana del Kodokan. La propia YMCA daría origen, décadas después, a uno de los kwans fundadores del taekwondo. En 1946, Yun Byeong-in, quien habría aprendido kwonbop de un instructor chino en Manchuria, fundó el YMCA Kwonbop-pu en la sede de la YMCA del barrio de Jongno, en Seúl. Yun desapareció durante la Guerra de Corea, y fue uno de sus alumnos más avanzados, Lee Nam-suk, quien reabrió la escuela después del conflicto bajo un nuevo nombre: Chang Moo Kwan, uno de los nueve kwans que componen el árbol genealógico oficial del taekwondo. Un detalle expone bien el patrón que este artículo documenta: aunque la YMCA llamaba kwonbop a la actividad, lo que se enseñaba allí era, en la práctica, mayoritariamente karate.

Después de la anexión, el proceso se institucionaliza. El investigador Yang Jin-bang, en una disertación defendida en la Universidad Nacional de Seúl en 1986, sitúa en 1914 la entrada del judo y el kendo en los currículos de las escuelas públicas coreanas y japonesas, y observa algo más incómodo para el relato oficial: fue ese el primer contacto formal de los coreanos con la idea de un arte marcial sistematizado, porque tal concepto no existía en el país antes de eso.

A partir de 1931, con la invasión de Manchuria, y sobre todo a partir de 1937, con la guerra total, el currículo colonial se militariza abiertamente. Estudios de historia de la educación registran esgrima de sable, judo, tiro con arco, natación y ejercicios militares como contenidos obligatorios en escuelas secundarias de Corea, incluyendo naginata (una lanza de hoja curva, arma tradicionalmente asociada al entrenamiento femenino en Japón) y tiro con arco para las alumnas. El kendo, ya bajo ese nombre, se convirtió en disciplina exigida en las escuelas coreanas en 1939 y así permaneció hasta 1945.

No se trata de un régimen benigno. Se trata de un régimen que usaba las artes marciales japonesas como herramienta de asimilación y de movilización militar de cuerpos coloniales. Eso es lo opuesto a prohibir artes marciales.

Había control, y una cosa es diferente de la otra

Aquí cabe una salvedad, porque la versión simplificada del desmentido también se equivoca.

No existía un decreto contra las artes marciales coreanas, pero sí existía control administrativo sobre asociaciones, reuniones y escuelas. Cuando Lee Won-kuk volvió de Tokio en 1944, después de estudiar derecho en la Universidad Chuo y karate Shotokan con Gichin Funakoshi, necesitó autorización del gobierno colonial para abrir una escuela. Los relatos coinciden: la solicitud fue negada dos veces y aprobada en la tercera. En septiembre de 1944 inauguró el Chung Do Kwan en el gimnasio de la escuela Yongsin, en Seúl.

Detalle revelador: lo que Lee pidió permiso para enseñar era karate. Y, cuando Corea se liberó en 1945, fue llevado a juicio justamente por su cercanía con los japoneses.

El régimen colonial también desalentaba las grandes aglomeraciones populares, y los festivales de aldea eran exactamente el ambiente en que aparecía el taekkyon. Restringir reuniones públicas es una cosa. Perseguir un arte marcial nacional es otra. La confusión entre ambas es lo que sostiene el mito.

El declive comenzó mucho antes

La parte de la historia que el relato nacionalista necesita borrar es la más interesante para quien estudia Corea.

La desvalorización de lo marcial en la península es un proceso largo, interno y neoconfuciano. A lo largo de la dinastía Joseon, el prestigio social migró de los oficiales militares hacia los letrados civiles, y el esfuerzo físico competitivo pasó a ser cosa de gente de clase baja. El Muyedobotongji, compilado en 1790 por orden del rey Jeongjo, es sintomático: es un manual monumental, casi todo dedicado a las armas, con una sección pequeña de combate desarmado que reproduce, con poca alteración, un manual militar chino anterior.

Las Reformas Gabo merecen un paréntesis, porque aparecen aquí solo como telón de fondo, pero por sí solas darían para otro artículo. Promulgadas entre 1894 y 1896 bajo el reinado de Gojong, en la estela de la Revuelta Campesina Donghak y de la Primera Guerra Sino-Japonesa, fueron un paquete amplio de modernización que reestructuró de una sola vez la política, la economía, el derecho y la sociedad coreanas: abolieron las castas hereditarias, extinguieron la esclavitud, prohibieron costumbres consideradas atrasadas, crearon ministerios al estilo occidental y disolvieron la relación tributaria con China. Los historiadores todavía debaten el grado de influencia japonesa detrás de ellas, ya que el gabinete reformista contó con apoyo de Tokio, pero el propio Gojong y facciones de la corte alternaron entre patrocinar y sabotear el proceso a lo largo de los dos años siguientes. Para el tema de este artículo interesa un efecto colateral poco discutido: desmontaron, desde adentro, el aparato estatal que sostenía la cultura marcial coreana, años antes de que ningún japonés pisara el país como poder colonial. Queda registrado aquí como sugerencia de tema futuro para The Sabunim.

El desmontaje institucional llega a fines del siglo XIX, y es obra coreana. En 1894, las Reformas Gabo extinguieron el sistema de exámenes estatales, el gwageo, incluyendo su vía militar, además de abolir las distinciones hereditarias de clase. Ese mismo año se disolvió el Muyebyeolgam, el cuerpo de guardias de élite palaciega creado en 1630. La academia militar del Imperio Coreano, fundada en 1896, fue disuelta en 1909. El ejército central fue disuelto en 1907, ya bajo protectorado japonés.

Es decir: cuando la bandera japonesa se izó en 1910, el aparato que sostenía la cultura marcial coreana ya había sido desmontado, en buena parte por decisión de los propios coreanos.

En cuanto al taekkyon, la evidencia apunta a una práctica localizada, no nacional. A comienzos del siglo XX sobrevivía básicamente en la región de la capital, y la investigación de Sungkyun Cho, Udo Moenig y Dohee Nam concluye que el taekkyon desapareció entre fines del siglo XIX y comienzos del XX. Hwang Kee, nacido en 1914, no menciona el taekkyon en su primer manual, de 1949, el documento más antiguo que sobrevive sobre artes marciales coreanas de la posguerra. Enumera kwonbop, tangsudo, kongsudo, jujutsu, judo y hasta armas de fuego, pero no el taekkyon. La explicación más económica es la más simple: probablemente no sabía que aquello existía.

Los Hwarang y una incomodidad histórica

El caso de los Hwarang es aún más incómodo, y es aquí donde la ironía se cierra.

El misionero e investigador Richard Rutt, en un estudio publicado en 1961, notó que los libros de historia coreanos anteriores a la anexión de 1910 nunca dicen más que muy poco sobre los Hwarang, y registró una observación decisiva: muchos coreanos de mediana edad en 1961 apenas habían oído hablar de los Hwarang antes de la liberación de 1945. Rutt va más allá. Señala que la idea de los Hwarang como culto militar solo gana protagonismo en el período en que los japoneses estaban promoviendo el bushido.

No es coincidencia. Investigaciones sobre el término hwarangdo muestran que fue acuñado en el período colonial, dentro de la política de asimilación sintetizada en el eslogan naisen ittai, la tesis de que Japón y Corea formaban un solo cuerpo. La operación consistía en identificar un equivalente coreano al bushido para probar que ambos pueblos compartían la misma espiritualidad. Después de 1945, el concepto fue reciclado como patrimonio espiritual auténticamente coreano.

La consolidación llegó con Hwarangdo yeon’gu, publicado en 1949 por Yi Seon-geun, formado en historia por la Universidad Waseda, ex director de una empresa industrial japonesa en Manchuria, luego coronel del ejército surcoreano, responsable de la adoctrinación ideológica de jóvenes soldados en la Guerra de Corea y Ministro de Educación entre 1954 y 1956. Rutt clasificó el libro como un ensayo sobre el espíritu Hwarang tal como este resultaba atractivo para el nacionalismo coreano naciente, con buena parte del contenido declaradamente especulativo.

Vale la pena registrar lo que no existe. No hay un solo registro, directo o indirecto, que asocie a los Hwarang con algún método de combate desarmado, ya sea como entrenamiento o en uso real. No hay armas, armaduras, pinturas ni documentos comparables al acervo material que sostiene la historia de los samuráis.

Esa desconexión entre la leyenda y la historia se volvió anécdota de tatami. El maestro Alexandre Coelho, asiduo asistente a los entrenamientos en el Kukkiwon y en la Chang Moo Kwan, en Seúl, le contó a este cronista que en cierta ocasión les preguntó a instructores coreanos sobre los Hwarang, queriendo demostrar que conocía bien la historia del país. La respuesta llegó en forma de risas: “¿Todavía cuentan esas historias?” Al parecer, en la tierra madre del taekwondo esa es una leyenda superada hace tiempo, pero que sigue encontrando terreno fértil en América Latina, siempre con gusto por una buena telenovela.

El espejo japonés

Es común decir que los japoneses, a diferencia de los coreanos, tenían sus artes marciales en alta estima y nunca las repudiaron. La realidad es más interesante.

El Japón Meiji también descartó a su clase guerrera. Los antiguos samuráis eran vistos en la década de 1880 como una reliquia de una era terminada, despojados de sus privilegios. El bushido como doctrina nacional es una construcción de fines del siglo XIX y, en su formulación imperial centrada en el emperador, del período posterior a la Guerra Ruso-Japonesa de 1904 y 1905, como demostró Oleg Benesch. El Dai Nippon Butokukai, entidad reguladora de las artes marciales japonesas, se fundó en Kioto recién en 1895. Y el judo de Kano Jigoro, con uniforme, cinturones y sistema de kyu y dan, es una racionalización moderna del jujutsu, no una herencia intacta.

Es decir: Japón no preservó una tradición marcial ininterrumpida. Reinventó una, y exportó el modelo. Corea, después de 1945, aplicó el mismo procedimiento a su propio pasado. Aprendió a inventar tradición de quien la colonizó.

Un empaque creado políticamente

El nombre taekwondo se acuñó en 1955 y solo se universalizó en 1965, bajo la Asociación Coreana de Taekwondo. El relato indígena consolidado, ese de los dos mil años, es posterior.

En 1971, el régimen de Park Chung-hee elevó el taekwondo a la condición de deporte nacional. Fue entonces cuando la historia debió estandarizarse. En 1972, el manual de Lee Chong-woo, presidente del comité técnico de la asociación, presentó el taekwondo como descendiente exclusivo del subak y el taekkyon, sin ninguna referencia al tangsudo, al kongsudo ni al kwonbop, términos de origen japonés y chino que dominaban la literatura anterior.

Lo que le pasó a quien cuestionó esto es parte de la historia. En 1990, el filósofo Kim Yong Ok publicó un libro que afirmaba sin rodeos que lo que se llama taekwondo fue hecho en Japón. Fue retirado a último momento de la conferencia de apertura de un simposio académico de la propia asociación, y su texto fue excluido de las actas.

Y está el testimonio más demoledor de todos. En una entrevista de 2001, poco antes de morir, el general Choi Hong Hi admitió que nunca aprendió taekkyon, al contrario de lo que había escrito durante décadas. Contó que oía historias sobre la práctica de los ancianos de la aldea, que vio a Song Deok-ki una sola vez, y concluyó que el taekkyon no tenía ningún sistema y no podría haber existido en la era Silla. Admitió haber construido el relato para darle al taekwondo la legitimidad que sus raíces en el karate japonés no le ofrecían al gusto nacionalista de Syngman Rhee.

El rigor histórico no es apología colonial, y vale decirlo con todas las letras.

La ocupación japonesa fue violenta y culturalmente destructiva. Se restringió la enseñanza del idioma coreano, los apellidos fueron sustituidos por nombres japoneses, y a partir de 1937 la población colonial fue movilizada para el esfuerzo de guerra. Los historiadores que desmontan el mito de la prohibición de las artes marciales son, muchos de ellos, los mismos que describen el período como asimilación forzada.

El punto es otro, y es más duro. La ocupación no necesitaba prohibir las artes marciales coreanas porque no existía, a escala nacional, un arte marcial coreano organizado que prohibir. Lo que la ocupación hizo fue llenar un vacío con judo, kendo y, después, karate, y formar a la generación que fundaría los kwans.

Por qué insistir en esto

Existe una tentación comprensible en torno a la historia marcial: la de que el linaje antiguo le confiere valor a la práctica actual. No lo hace.

El taekwondo deportivo, con su propia evolución técnica, su sistema competitivo y su repertorio de piernas que no tiene paralelo en ningún arte japonés, se desarrolló en Corea, por coreanos, en las últimas siete décadas. Es un logro real. La paradoja señalada por Capener es que insistir en el origen milenario le impide al taekwondo reivindicar la identidad coreana que efectivamente construyó.

Quien repite el mito del entrenamiento clandestino en los templos no está honrando a nadie. Solo está cambiando una historia verificable por una historia cómoda. Y, en este caso, está repitiendo una invención de 1971 creyendo que defiende una tradición milenaria.

Fontes

Artigos acadêmicos

Capener, Steven D. “The Making of a Modern Myth: Inventing a Tradition for Taekwondo”. Korea Journal, vol. 56, n. 1, 2016, p. 61 a 92.

Capener, Steven D. “Problems in the Identity and Philosophy of Taekwondo and Their Historical Causes”. Korea Journal, vol. 35, n. 4, 1995.

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