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Como seria ensinar um taekwondo diferente na Coreia? A gente descobriu.

Em Seul, o mestre que manteve viva um estilo de taekwondo não coreano por trinta anos fala pela primeira vez sobre a escolha que fez. E conta sobre confrontar a força da cultura local.

Nowon-gu não tem nada de pitoresco. É bairro de gente que trabalha, prédios repetidos, mercearias de esquina, o metrô passando a cada três minutos como se tivesse pressa de esquecer o lugar. Ninguém escolhe Nowon-gu para se apaixonar por uma cidade. E é exatamente ali, num segundo andar sem letreiro chamativo, que um homem guarda, sem alarde, a última prova de que um sonho americano-coreano não morreu de vez.

O dojang chama-se Sun Taekwondo Academy. O homem chama-se Beom Seok Seo. E antes desta entrevista, ninguém havia lhe perguntado o que ele carrega. Não porque não seja importante, pelo contrário. O problema é que as pessoas vivem preocupadas de mais em ver o mundo pelo prisma umbilical e sequer checar as narrativas hagiográficas que perduram por aí.

Esta história começou a ser escrita há bastante tempo. Uma noite de primavera num bar em Muju, a duas esquinas do suntuosa sede do Taekwondowon. Naquele jantar eu conheci o mestre que segurou nos ombros, quase sozinho, o sonho de Haeng Ung Lee: ensinar o taekwondo Songahm na Coreia do Sul.

1994: um certificado na parede, uma dúvida no peito

Beom Seok Seo pendurou o certificado do Kukkiwon e abriu seu próprio dojang em Seul em 1994. O negócio ia bem, bem o bastante para permitir uma viagem aos Estados Unidos, à procura de sistemas que fizessem escolas prosperarem. Foi lá, longe de casa, que ouviu falar pela primeira vez de uma organização que crescia fora do domínio do Kukkiwon, sustentada por um sistema de franquias e, mais curioso ainda, comandada por um coreano.

“Os donos de dojang americanos me informaram que era uma organização com um sistema diferente do Kukkiwon, mas que operava com muitos dojangs de sucesso através de franquia, dirigida pelo presidente coreano Haeng Ung Lee”, relata Seo.

Um coreano, comandando de longe um império de tatames em solo americano. Para um instrutor formado dentro da ortodoxia e do nacionalismo do Kukkiwon, aquilo soava quase como uma heresia. E soava, também, irresistível.

O aperto de mão que durou trinta anos

Em 1996, quando a ATA Martial Arts Korea anunciou que chegaria ao país como rede de franquias, Seo bateu à porta certa. A equipe de divulgação lhe deu uma informação que parecia coincidência demais para ser acaso: o diretor educacional da sede americana estava na Coreia naquele exato momento.

No dia seguinte, os dois se sentaram frente a frente.

“Assim conheci o atual Grand Master MK Lee, que na época era o diretor educacional do escritório central americano, e ele se tornou meu mestre no Songahm Taekwondo, uma relação que mantenho até hoje”, diz Seo.

Trinta anos depois, o aperto de mão ainda não se desfez. E foi MK Lee que fez a ponte. Ele que provocou o jantar do começo desta história, ele que passou o contato para que o Seok Seo fosse o meu guia por alguns momentos em Seul.

A catedral sem o seu evangelho

O dojang de Seo virou o primeiro filiado oficial da ATA Martial Arts em solo coreano. Recebeu, pessoalmente, o treinamento de MK Lee na filosofia e no sistema pedagógico da organização, e foi erguido a dojang-sede dos seminários educacionais do país, referência para uma rede que chegaria a quase quinhentas escolas afiliadas. Essa empreitada era um sonho pessoal e político de Haeng Ung Lee. Em dezenas de entrevistas para diversos jornalistas coreanos, Lee afirmava sua consternação em ver mestres de taekwondo vivendo como motoristas, entregadores e outras atividades enquanto o seu conhecimento da arte marcial era um “bico”. 

Implementar o sistema de gerenciamento de escolas e alunos que havia sido desenvolvido nos Estados Unidos, muito com a ajuda de Richard Reed, era tido como uma missão de Lee para com os seus compatriotas. E aquilo tocou Seok Seo.

“Quando surgiam dúvidas dos mestres coreanos sobre se o sistema americano fazia sentido na Coreia, eu, que operava diretamente o modelo, explicava e propunha métodos de ensino, participando para aumentar a compreensão dos mestres coreanos”, afirma.

Mas toda catedral tem uma relíquia que falta no altar. E a relíquia ausente ali, desde o primeiro dia, foi o poomsae Songahm, aquele criado nos Estados Unidos, em 13 de agosto de 1983 (a maioria dos praticantes do estilo não fazem ideia dessa data). A decisão de deixá-lo de fora não veio de um comitê distante na América. Foi de Seo, no chão do próprio dojang, medindo o quanto a Coreia estava disposta a aceitar. Em seu lugar ficaram os taeguks, o currículo oficial do taekwondo Kukki, o sistema nacional supervisionado pelo Kukkiwon, porém com a alma pedagógica Songahm por cima: o sistema de clubes, a gestão de turmas, a metodologia técnica, o aconselhamento, a engenharia administrativa que fazia dojangs darem lucro e sentido ao mesmo tempo.

“Não ensinar o poomsae Songahm certamente envolveu vários interesses, mas, na minha opinião pessoal, acho que havia um problema de tempo para que os mestres que operam dojangs na Coreia ensinassem tanto o poomsae Kukki quanto o Songahm, além da realidade de que o certificado do Kukkiwon é predominante na Coreia, e de problemas vindos da relação entre o Kukkiwon e o sistema institucional coreano”, explica Seo.

No fundo, todas essas razões apontam para a mesma direção: não valia a pena abrir uma disputa com um sistema que já era, havia décadas, a espinha dorsal cultural do taekwondo coreano.

Ainda assim, ele não abre mão do orgulho. “Naquela época, a ATA Korea trouxe uma grande mudança para a Coreia, e tenho orgulho de dizer que desempenhou um papel importante na mudança e no desenvolvimento do taekwondo coreano atual.” O relato de Seok Seo é confirmado em vários materiais que encontramos na pesquisa biográfico para o livro sobre Haeng Ung Lee. Ao passo que as críticas ao sistema vieram muito fortes. Não pela inaplicabilidade, mas por mostrar um caminho diferente, o ensino de taekwondo como profissão rentável como qualquer outra profissão. E o conflito entre produto e cultura se instaurou. Seo sofreu a pressão de perto.

Ele próprio tentou forçar a exceção, ensinando os dois poomsaes lado a lado, com o apoio do então diretor educacional da ATA Korea, Yoo Myeong-sik, chegando a montar programas inteiros para adultos e famílias em torno do Songahm.

Porém, pouco mais de um ano de trabalho crescente, o maior de todos os tombos. Em 21 de novembro de 1997, a Coreia do Sul pediu socorro ao Fundo Monetário Internacional, um gesto que o então presidente Kim Young-sam chamaria publicamente de humilhação nacional. Doze dias depois veio o pacote de resgate, 58 bilhões de dólares, o maior da história do FMI até aquele momento, amarrado a juros acima de 30%, austeridade fiscal e à exigência de desmontar parte da estrutura dos chaebols (os grande conglomerados industriais na Coreia do Sul que são administrados e controlados por uma família). 

Foi o ano em que famílias coreanas levaram aos bancos anéis de casamento e medalhas olímpicas para ajudar a pagar a dívida do país, um gesto coletivo que o Sabunim já contou em outra reportagem. É esse pano de fundo, e não apenas uma questão de calendário pedagógico, que emoldura a frase de Seo sobre 1997.

“O importante é que todo processo e trabalho precisam do momento e do ambiente certos para gerar resultados estáveis. Acredito que, em 1997, abandonar o Kukkiwon para adotar o poomsae Songahm, e conseguir que alunos e pais obtivessem essa certificação, era uma época difícil, independentemente do valor educacional envolvido”, diz.

A mesa de cem lugares

Há um trecho no relato de Seo que muda de temperatura, como quem lembra de algo que ainda dói de tão bom. Pouco antes de morrer, Haeng Ung Lee reuniu cerca de cem convidados em um jantar nos Estados Unidos. Seo estava entre eles, indicado pelo atual Presidente da organização.

“Fui convidado para o jantar por recomendação do atual Presidente MK Lee, e depois da refeição tive a oportunidade de conversar diretamente com o Presidente Haeng Ung Lee, junto com ele”, relata.

Haeng Ung Lee morreu em 5 de outubro de 2000. Não há como saber, hoje, o que exatamente foi dito naquela mesa. Mas o efeito daquela noite atravessou vinte e seis anos sem perder força.

“Desde então, atuo como mestre da ATA Korea até hoje pela promessa e pelo senso de missão que carrego daquele encontro”, diz Seo.

O período em que ninguém procurou por ele

Depois de 1997, a história da ATA Korea some dos registros ocidentais. Nenhum livro, nenhum artigo, nenhuma nota de rodapé. Como se o projeto tivesse simplesmente sido apagado. Os poucos conteúdos que a instituição produziu esbarram em frases limitadas. Sem muitas explicações. Até hoje, são raros os mestres do estilo Songahm que sabem deste capítulo, menos ainda são os que foram até a Coreia do Sul.

Seo tenta desfazer esse mito com uma frase seca. “A ATA teve um período de descanso por diversas dificuldades depois de 1997, mas, embora não seja um sistema operado diretamente pela sede americana, continuou existindo através de mestres coreanos com propósito. Ainda hoje existem líderes que respeitam a educação e a filosofia Songahm. No entanto, sem ensinar o poomsae, operamos apenas o sistema educacional, de clubes e de gestão.”

Não houve incêndio, houve rescaldo. E um rescaldo, se ninguém mexe nele, pode durar décadas.

A virada, aos poucos, num segundo andar em Nowon-gu

Há cerca de três anos, Seo decidiu que o rescaldo precisava virar fogo de novo. Assumiu a condução da ATA Korea e começou a empurrar, dojang por dojang, a mudança que ele mesmo havia tentado sozinho em 1997.

“Enquanto dirijo a ATA Korea, estou mudando incondicionalmente para o modelo de operação de dojang com o poomsae Songahm. Já se passaram três anos desde que assumi essa direção. É uma escolha e um caminho difíceis, com dificuldades pela frente, mas seguimos avançando”, diz. “Atualmente o mestre MK Lee, Presidente, está conosco, com muito apoio e carinho.”

O que fica

Ao fechar o relato, depois de trinta anos resumidos em poucas páginas, Seo entrega a frase que talvez explique tudo o resto. “Para mim, não é uma questão de quão difícil ou trabalhoso algo é, mas sim de seguir na direção correta, então eu simplesmente sigo em frente. No entanto, não avanço de olhos, ouvidos, coração e mente fechados. Vou avançar através da comunicação e da cooperação.”

Lá fora, o metrô de Nowon-gu continua passando a cada três minutos, indiferente. Mas no segundo andar sem letreiro, alguém continua ensinando um poomsae que o mundo, do lado de fora da Coreia, jurava estar extinto. E o Sabunim fica com uma pergunta sem respostas. E se, aquele convite de Kim Un-Yong tivesse se concretizado e em 1999, Haeng Ung Lee tivesse se tornado vice-presidente do Kukkiwon? 

Ao longo dos anos, o taekwondo nacional na Coreia do Sul se profissionalizou muito. Hoje, é fácil encontrar escolas dignas de foto, assim como mestres vivendo de suas aulas, vivendo bem. Talvez o barulho que Seok Seo e o irmão mais novo de Haeng Ung Lee fizeram na Coreia do Sul, na década de 1990 tenha semeado uma nova cultura. Talvez, com a Coreia do Sul globalizada coo hoje, haja espaço para muito mais coisas no taekwondo e no Kukkiwon. Essa resposta, somente o tempo nos dará.

¿Cómo sería enseñar un taekwondo diferente en Corea? Lo descubrimos.

En Seúl, el maestro que mantuvo vivo durante treinta años un estilo de taekwondo no coreano habla por primera vez sobre la decisión que tomó. Y cuenta lo que significó enfrentar la fuerza de la cultura local.

The Sabunim

Nowon-gu no tiene nada de pintoresco. Es un barrio de gente que trabaja, edificios repetidos, tiendas de esquina, el metro pasando cada tres minutos como si tuviera prisa por olvidar el lugar. Nadie elige Nowon-gu para enamorarse de una ciudad. Y es justo ahí, en un segundo piso sin letrero llamativo, donde un hombre guarda, sin aspavientos, la última prueba de que un sueño coreano-estadounidense no murió del todo.

El dojang se llama Sun Taekwondo Academy. El hombre se llama Beom Seok Seo. Y antes de esta entrevista, nadie le había preguntado qué es lo que carga. No porque no sea importante, todo lo contrario. El problema es que la gente vive demasiado preocupada por ver el mundo a través de su propio ombligo, y ni siquiera se molesta en comprobar las narrativas hagiográficas que perduran por ahí.

Esta historia empezó a escribirse hace bastante tiempo. Una noche de primavera en un bar de Muju, a dos cuadras de la suntuosa sede del Taekwondowon. En aquella cena conocí al maestro que sostuvo sobre sus hombros, casi solo, el sueño de Haeng Ung Lee: enseñar el taekwondo Songahm en Corea del Sur.

1994: un certificado en la pared, una duda en el pecho

Beom Seok Seo colgó el certificado del Kukkiwon y abrió su propio dojang en Seúl en 1994. El negocio iba bien, lo bastante bien como para permitirse un viaje a Estados Unidos, en busca de sistemas que hicieran prosperar escuelas. Fue allí, lejos de casa, donde escuchó por primera vez de una organización que crecía fuera del dominio del Kukkiwon, sostenida por un sistema de franquicias y, más curioso aún, dirigida por un coreano.

“Los dueños de dojang estadounidenses me informaron que era una organización con un sistema diferente al Kukkiwon, pero que operaba con muchos dojangs exitosos mediante franquicia, dirigida por el presidente coreano Haeng Ung Lee”, relata Seo.

Un coreano, comandando desde lejos un imperio de tatamis en suelo estadounidense. Para un instructor formado dentro de la ortodoxia y el nacionalismo del Kukkiwon, aquello sonaba casi a herejía. Y sonaba, también, irresistible.

El apretón de manos que duró treinta años

En 1996, cuando ATA Martial Arts Korea anunció que llegaría al país como red de franquicias, Seo tocó la puerta correcta. El equipo de promoción le dio una información que parecía demasiada coincidencia para ser azar: el director educativo de la sede estadounidense estaba en Corea en ese preciso momento.

Al día siguiente, ambos se sentaron frente a frente.

“Así conocí al actual Grand Master MK Lee, quien en ese entonces era el director educativo de la oficina central estadounidense, y se convirtió en mi maestro en Songahm Taekwondo, una relación que mantengo hasta hoy”, dice Seo.

Treinta años después, el apretón de manos todavía no se ha deshecho. Y fue MK Lee quien tendió el puente. Él fue quien provocó la cena del comienzo de esta historia, él fue quien pasó el contacto para que Seok Seo fuera mi guía durante algunos momentos en Seúl.

La catedral sin su evangelio

El dojang de Seo se convirtió en el primer afiliado oficial de la ATA Martial Arts en suelo coreano. Recibió, personalmente, la formación de MK Lee en la filosofía y el sistema pedagógico de la organización, y fue elevado a dojang sede de los seminarios educativos del país, referencia para una red que llegaría a casi quinientas escuelas afiliadas. Esa empresa era un sueño personal y político de Haeng Ung Lee. En decenas de entrevistas a diversos periodistas coreanos, Lee expresaba su consternación al ver a maestros de taekwondo viviendo como conductores, repartidores y otros oficios, mientras su conocimiento del arte marcial era apenas un “trabajo extra”.

Implementar el sistema de gestión de escuelas y alumnos que se había desarrollado en Estados Unidos, en gran parte con la ayuda de Richard Reed, era considerado una misión de Lee hacia sus compatriotas. Y eso conmovió a Seok Seo.

“Cuando surgían dudas entre los maestros coreanos sobre si el sistema estadounidense tenía sentido en Corea, yo, que operaba directamente el modelo, explicaba y proponía métodos de enseñanza, participando para aumentar la comprensión de los maestros coreanos”, afirma.

Pero toda catedral tiene una reliquia que falta en el altar. Y la reliquia ausente allí, desde el primer día, fue el poomsae Songahm, aquel creado en Estados Unidos, el 13 de agosto de 1983 (la mayoría de los practicantes del estilo no tienen idea de esa fecha). La decisión de dejarlo fuera no vino de un comité lejano en Estados Unidos. Fue de Seo, en el piso de su propio dojang, midiendo cuánto estaba dispuesta Corea a aceptar. En su lugar quedaron los taeguks, el currículo oficial del taekwondo Kukki, el sistema nacional supervisado por el Kukkiwon, aunque con el alma pedagógica Songahm por encima: el sistema de clubes, la gestión de clases, la metodología técnica, el asesoramiento, la ingeniería administrativa que hacía que los dojangs dieran ganancia y sentido al mismo tiempo.

“No enseñar el poomsae Songahm ciertamente involucró varios intereses, pero, en mi opinión personal, creo que había un problema de tiempo para que los maestros que operan dojangs en Corea enseñaran tanto el poomsae Kukki como el Songahm, además de la realidad de que el certificado del Kukkiwon predomina en Corea, y de problemas surgidos de la relación entre el Kukkiwon y el sistema institucional coreano”, explica Seo.

En el fondo, todas esas razones apuntan en la misma dirección: no valía la pena abrir una disputa con un sistema que ya era, desde hacía décadas, la columna vertebral cultural del taekwondo coreano.

Aun así, no renuncia al orgullo. “En esa época, ATA Korea trajo un gran cambio a Corea, y me enorgullece decir que desempeñó un papel importante en el cambio y desarrollo del taekwondo coreano actual.” El relato de Seok Seo se confirma en varios materiales que encontramos durante la investigación biográfica para el libro sobre Haeng Ung Lee. Mientras tanto, las críticas al sistema llegaron con fuerza. No por su inaplicabilidad, sino por mostrar un camino distinto, el de enseñar taekwondo como una profesión rentable, igual que cualquier otra. Y el conflicto entre producto y cultura se instaló. Seo sufrió esa presión de cerca.

Él mismo intentó forzar la excepción, enseñando ambos poomsaes lado a lado, con el apoyo del entonces director educativo de ATA Korea, Yoo Myeong-sik, y llegó a montar programas enteros para adultos y familias en torno al Songahm.

Pero, poco más de un año de trabajo creciente después, llegó el mayor de todos los tropiezos. El 21 de noviembre de 1997, Corea del Sur pidió auxilio al Fondo Monetario Internacional, un gesto que el entonces presidente Kim Young-sam calificaría públicamente de humillación nacional. Doce días después llegó el paquete de rescate, 58 mil millones de dólares, el mayor de la historia del FMI hasta ese momento, atado a tasas de interés superiores al 30%, austeridad fiscal y la exigencia de desmontar parte de la estructura de los chaebols (los grandes conglomerados industriales de Corea del Sur, administrados y controlados por una sola familia).

Fue el año en que familias coreanas llevaron a los bancos anillos de boda y medallas olímpicas para ayudar a pagar la deuda del país, un gesto colectivo que el Sabunim ya contó en otro reportaje. Es ese trasfondo, y no solo una cuestión de calendario pedagógico, lo que enmarca la frase de Seo sobre 1997.

“Lo importante es que todo proceso y trabajo necesita del momento y el entorno adecuados para generar resultados estables. Creo que, en 1997, abandonar el Kukkiwon para adoptar el poomsae Songahm, y lograr que alumnos y padres obtuvieran esa certificación, era una época difícil, más allá del valor educativo involucrado”, dice.

La mesa de cien lugares

Hay un pasaje en el relato de Seo que cambia de temperatura, como quien recuerda algo que todavía duele de lo bueno que fue. Poco antes de morir, Haeng Ung Lee reunió a cerca de cien invitados en una cena en Estados Unidos. Seo estaba entre ellos, recomendado por el actual Presidente de la organización.

“Fui invitado a la cena por recomendación del actual Presidente MK Lee, y después de la comida tuve la oportunidad de conversar directamente con el Presidente Haeng Ung Lee, junto a él”, relata.

Haeng Ung Lee murió el 5 de octubre de 2000. No hay forma de saber, hoy, qué se dijo exactamente en esa mesa. Pero el efecto de aquella noche atravesó veintiséis años sin perder fuerza.

“Desde entonces, actúo como maestro de ATA Korea hasta hoy por la promesa y el sentido de misión que cargo desde aquel encuentro”, dice Seo.

El período en que nadie lo buscó

Después de 1997, la historia de ATA Korea desaparece de los registros occidentales. Ningún libro, ningún artículo, ninguna nota al pie. Como si el proyecto hubiera sido simplemente borrado. Los pocos contenidos que la institución produjo se topan con frases limitadas. Sin muchas explicaciones. Todavía hoy son raros los maestros del estilo Songahm que conocen este capítulo, y menos aún los que han ido a Corea del Sur.

Seo intenta desarmar ese mito con una frase seca. “La ATA tuvo un período de descanso por diversas dificultades después de 1997, pero, aunque no es un sistema operado directamente por la sede estadounidense, continuó existiendo a través de maestros coreanos con propósito. Todavía hoy existen líderes que respetan la educación y la filosofía Songahm. Sin embargo, sin enseñar el poomsae, operamos solo el sistema educativo, de clubes y de gestión.”

No hubo incendio, hubo rescoldo. Y un rescoldo, si nadie lo toca, puede durar décadas.

El giro, poco a poco, en un segundo piso de Nowon-gu

Hace unos tres años, Seo decidió que el rescoldo necesitaba volver a ser fuego. Asumió la conducción de ATA Korea y comenzó a empujar, dojang por dojang, el cambio que él mismo había intentado solo en 1997.

“Mientras dirijo ATA Korea, estoy cambiando incondicionalmente hacia el modelo de operación de dojang con el poomsae Songahm. Ya han pasado tres años desde que asumí esta dirección. Es una elección y un camino difíciles, con dificultades por delante, pero seguimos avanzando”, dice. “Actualmente el maestro MK Lee, Presidente, está con nosotros, con mucho apoyo y cariño.”

Lo que queda

Al cerrar el relato, después de treinta años resumidos en pocas páginas, Seo entrega la frase que tal vez explique todo lo demás. “Para mí, no es una cuestión de cuán difícil o trabajoso sea algo, sino de seguir en la dirección correcta, así que simplemente sigo adelante. Sin embargo, no avanzo con los ojos, los oídos, el corazón y la mente cerrados. Avanzaré a través de la comunicación y la cooperación.”

Afuera, el metro de Nowon-gu sigue pasando cada tres minutos, indiferente. Pero en el segundo piso sin letrero, alguien sigue enseñando un poomsae que el mundo, fuera de Corea, juraba extinto. Y el Sabunim se queda con una pregunta sin respuesta. ¿Y si aquella invitación de Kim Un-yong se hubiera concretado, y en 1999 Haeng Ung Lee se hubiera convertido en vicepresidente del Kukkiwon?

Con los años, el taekwondo nacional en Corea del Sur se profesionalizó mucho. Hoy es fácil encontrar escuelas dignas de una foto, así como maestros que viven de sus clases, y viven bien. Quizás el ruido que Seok Seo y el hermano menor de Haeng Ung Lee hicieron en Corea del Sur, en la década de 1990, haya sembrado una nueva cultura. Quizás, con la Corea del Sur globalizada de hoy, haya espacio para muchas más cosas en el taekwondo y en el Kukkiwon. Esa respuesta solo el tiempo nos la dará.

What Would It Look Like to Teach a Different Taekwondo in Korea? We Found Out.

In Seoul, the master who kept a non-Korean style of taekwondo alive for thirty years speaks for the first time about the choice he made. And about what it meant to confront the strength of local culture.

The Sabunim

Nowon-gu has nothing picturesque about it. It is a district of working people, repeated apartment blocks, corner stores, the subway passing every three minutes as if in a hurry to forget the place. No one picks Nowon-gu to fall in love with a city. And it is exactly there, on an unmarked second floor, that one man quietly keeps the last proof that a Korean-American dream never fully died.

The dojang is called Sun Taekwondo Academy. The man is called Beom Seok Seo. And before this interview, no one had ever asked him what he carries. Not because it isn’t important, quite the opposite. The problem is that people spend too much time seeing the world through their own navel, and rarely bother to check the hagiographic narratives that keep circulating out there.

This story started being written a long time ago. A spring night at a bar in Muju, two blocks from the grand headquarters of the Taekwondowon. It was at that dinner that I met the master who had carried, almost alone, on his own shoulders, Haeng Ung Lee’s dream: teaching Songahm taekwondo in South Korea.

1994: a certificate on the wall, a doubt in the chest

Beom Seok Seo hung his Kukkiwon certificate and opened his own dojang in Seoul in 1994. Business was good, good enough to afford a trip to the United States in search of systems that made schools thrive. It was there, far from home, that he first heard of an organization growing outside the Kukkiwon’s domain, held together by a franchise system and, more curious still, run by a Korean.

“American dojang owners told me it was an organization with a different system from the Kukkiwon, but one that operated many successful dojangs through franchising, run by the Korean president Haeng Ung Lee,” Seo recalls.

A Korean, commanding an empire of mats on American soil from a distance. For an instructor raised inside the orthodoxy and nationalism of the Kukkiwon, it sounded almost like heresy. It also sounded irresistible.

The handshake that lasted thirty years

In 1996, when ATA Martial Arts Korea announced it would arrive in the country as a franchise network, Seo knocked on the right door. The promotion team handed him a piece of information that felt like too much coincidence to be chance: the American headquarters’ education director happened to be in Korea at that exact moment.

The two sat down together the next day.

“That is how I met the current Grand Master MK Lee, who at the time was the education director of the American central office, and he became my teacher in Songahm Taekwondo, a relationship I maintain to this day,” Seo says.

Thirty years later, the handshake has still not come undone. And it was MK Lee who built the bridge. He is the one who set up the dinner that opens this story, the one who passed along the contact so that Seok Seo could be my guide for a few moments in Seoul.

The cathedral missing its own gospel

Seo’s dojang became the first officially affiliated ATA Martial Arts school on Korean soil. He received personal training from MK Lee in the organization’s philosophy and pedagogical system, and his dojang was raised to host site for the country’s educational seminars, the reference point for a network that would grow to nearly five hundred affiliated schools. That undertaking was a personal and political dream of Haeng Ung Lee’s. In dozens of interviews with various Korean journalists, Lee voiced his dismay at seeing taekwondo masters working as drivers, delivery men, and in other jobs, while their knowledge of the martial art amounted to little more than a side gig.

Implementing the school and student management system developed in the United States, largely with the help of Richard Reed, was regarded as a mission Lee owed his compatriots. And that moved Seok Seo.

“When Korean masters raised doubts about whether the American system made sense in Korea, I, as the one directly operating the model, would explain and propose teaching methods, helping to broaden the understanding among Korean masters,” he states.

But every cathedral is missing one relic from its altar. And the relic missing there, from day one, was the Songahm poomsae, created in the United States on August 13, 1983 (most practitioners of the style have no idea of that date). The decision to leave it out did not come from some distant committee in America. It was Seo’s, made on the floor of his own dojang, gauging how much Korea was willing to accept. In its place stood the taeguks, the official curriculum of Kukki taekwondo, the national system overseen by the Kukkiwon, though wearing the Songahm pedagogical soul on top: the club system, class management, technical methodology, counseling, the administrative engineering that made dojangs profitable and meaningful at once.

“Not teaching the Songahm poomsae certainly involved various interests, but in my personal opinion, I think there was a time problem for masters running dojangs in Korea to teach both the Kukki and Songahm poomsae, on top of the reality that Kukkiwon certification is dominant in Korea, and issues arising from the relationship between the Kukkiwon and Korea’s institutional system,” Seo explains.

Underneath it all, every one of those reasons points the same way: it was not worth opening a fight with a system that had already been, for decades, the cultural backbone of Korean taekwondo.

Even so, he will not give up the pride. “At that time, ATA Korea brought about great change in Korea, and I am proud to say it played an important role in the change and development of Korean taekwondo as it exists today.” Seok Seo’s account is confirmed by several materials found during the biographical research for the book on Haeng Ung Lee. Meanwhile, criticism of the system came hard. Not over whether it worked, but over what it represented: a different path, teaching taekwondo as a profitable profession like any other. And the conflict between product and culture took hold. Seo felt that pressure up close.

He himself tried to force the exception, teaching both poomsae systems side by side, with the support of then ATA Korea education director Yoo Myeong-sik, going as far as building entire adult and family programs around Songahm.

But just over a year into that growing momentum came the biggest stumble of all. On November 21, 1997, South Korea asked the International Monetary Fund for help, a move the sitting president, Kim Young-sam, would publicly call a national humiliation. Twelve days later came the bailout package, 58 billion dollars, the largest in IMF history at the time, tied to interest rates above 30 percent, fiscal austerity, and the demand to dismantle part of the chaebol structure (the large South Korean industrial conglomerates run and controlled by a single family).

It was the year Korean families brought wedding rings and Olympic medals to banks to help pay off the country’s debt, a collective gesture the Sabunim has covered in another feature. That backdrop, not just a matter of teaching-calendar timing, frames Seo’s line about 1997.

“What matters is that every process and undertaking needs the right timing and environment to produce stable results. I believe that in 1997, abandoning Kukkiwon to adopt the Songahm poomsae, and getting students and parents to pursue that certification, was a difficult time, regardless of the educational value involved,” he says.

The table for a hundred

There is a passage in Seo’s account that shifts in temperature, the way someone speaks of a memory that still aches for how good it was. Shortly before his death, Haeng Ung Lee gathered roughly a hundred guests for a dinner in the United States. Seo was among them, recommended by the organization’s current President.

“I was invited to the dinner on the recommendation of the current President MK Lee, and after the meal I had the chance to speak directly with President Haeng Ung Lee, alongside him,” he recalls.

Haeng Ung Lee died on October 5, 2000. There is no knowing, today, exactly what was said at that table. But the effect of that night carried through twenty-six years without losing strength.

“Since then, I have continued serving as an ATA Korea master to this day because of the promise and sense of mission I carry from that meeting,” Seo says.

The years nobody came looking

After 1997, ATA Korea’s story vanishes from Western records. No book, no article, no footnote. As if the project had simply been erased. The little content the institution did produce runs into limited, unexplained phrasing. Even today, few masters of the Songahm style know this chapter, and fewer still have ever gone to South Korea.

Seo tries to dismantle that myth with one dry line. “The ATA went through a period of rest due to various difficulties after 1997, but even though it is not a system operated directly by American headquarters, it continued to exist through committed Korean masters. There are still leaders today who respect the Songahm education and philosophy. However, without teaching the poomsae, we only operate the educational, club, and management system.”

There was no fire, there were embers. And embers, if no one disturbs them, can last for decades.

The turn, slowly, on an unmarked second floor in Nowon-gu

About three years ago, Seo decided the embers needed to become fire again. He took over the leadership of ATA Korea and began pushing, dojang by dojang, the change he had once tried alone in 1997.

“While leading ATA Korea, I am unconditionally shifting toward the dojang operating model built around the Songahm poomsae. Three years have passed since I took on this direction. It is a difficult choice and path, with challenges ahead, but we keep moving forward,” he says. “Master MK Lee, the President, is currently with us, with great support and care.”

What remains

Closing his account, after thirty years condensed into a few pages, Seo offers the line that may explain everything else. “For me, it is not a question of how difficult or demanding something is, but of moving in the right direction, so I simply keep going. However, I do not move forward with my eyes, ears, heart, and mind closed. I will move forward through communication and cooperation.”

Outside, the Nowon-gu subway keeps passing every three minutes, indifferent. But on the unmarked second floor, someone keeps teaching a poomsae the world outside Korea swore was extinct. And the Sabunim is left with a question that has no answer. What if that invitation from Kim Un-yong had gone through, and in 1999 Haeng Ung Lee had become vice-president of the Kukkiwon?

Over the years, national taekwondo in South Korea has professionalized a great deal. Today it is easy to find schools worth photographing, and masters who live off their classes, and live well. Maybe the noise Seok Seo and Haeng Ung Lee’s younger brother made in South Korea back in the 1990s planted a new culture. Maybe, with South Korea as globalized as it is today, there is room for much more in taekwondo and in the Kukkiwon. Only time will give us that answer.

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