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Linha do tempo do dobok: do judogi emprestado ao símbolo em disputa

Um recorte histórico à parte, complementar ao artigo “O dobok não é pano: é rito de passagem”


O dobok que hoje se vende como sinônimo natural de taekwondo tem uma origem bem menos linear do que a maioria dos praticantes imagina. Ele nasceu emprestado, foi reinterpretado por motivos políticos pelo menos duas vezes, e se fixou em formas diferentes no Oriente e no Ocidente por pura circunstância de calendário. Vale a pena reconstruir essa linha do tempo.

1945-1961: a era dos kwans, o uniforme japonês sem disfarce

Com a libertação da Coreia em 1945, os mestres que fundaram os primeiros kwans (Chung Do Kwan, Moo Duk Kwan, Ji Do Kwan, Chang Moo Kwan, Song Moo Kwan, entre outros) haviam aprendido suas bases marciais no Japão, majoritariamente em karate. Não é surpresa, então, que o uniforme adotado nesses primeiros anos fosse essencialmente o karategi japonês: tecido pesado, jaqueta de abertura frontal amarrada por uma faixa, totalmente branco. Alguns kwans preservaram detalhes ainda mais explicitamente japoneses, como o Ji Do Kwan, cujo fundador, Yong Byung In, mantinha laços próximos com a cultura marcial japonesa e usava um padrão de losangos idêntico ao de certos judogis. O nome “dobok” já existia, mas o objeto vestido ainda era, na prática, um karategi rebatizado.

Por que branco: a explicação prática antes da explicação filosófica

A explicação prática é pouco romântica. No Japão do início do século XX, Gichin Funakoshi, ao levar o karate de Okinawa para o Japão continental, enfrentava um ambiente ultranacionalista que via com desconfiança qualquer arte marcial de origem não japonesa. Para evitar que o karate fosse rotulado como “bárbaro” e ganhar legitimidade, Funakoshi adotou o judogi e o sistema de faixas criado por Jigoro Kano para o judô, incluindo o branco padrão do uniforme de treino. Quando o karate chegou à Coreia através dos futuros fundadores dos kwans, o branco veio junto, como herança direta de uma decisão de marketing marcial japonesa das décadas de 1920 e 1930.

A camada filosófica, quase hagiográfica, veio depois, e coreana. A Coreia tem uma tradição milenar de identificação com a cor branca, a ponto de o povo coreano ser historicamente chamado de baekuiminjok, o “povo vestido de branco”. Essa prática, documentada desde pelo menos o século II a.C., carrega camadas de significado que vão da pureza espiritual e da humildade confucionista até uma leitura de resistência cultural: durante a ocupação japonesa (1910-1945), o uso de roupas brancas chegou a ser alvo de mais de cem regulamentações e proibições coloniais, precisamente porque era percebido como marcador de identidade coreana. Depois da libertação, essa história permitiu que o branco do dobok, originalmente uma herança pragmática japonesa, fosse reapropriado no discurso coreano como continuidade de uma tradição nacional de pureza e integridade. A cor é a mesma. A narrativa que a sustenta mudou por completo, e essa segunda narrativa, construída a posteriori, é a que sobrevive hoje nas academias.

1966: o ITF de Choi Hong Hi e a continuidade do corte cruzado

Quando o General Choi Hong Hi funda a International Taekwondo Federation em 1966, já em rota de colisão política com o governo sul-coreano, o corte do uniforme não é o campo de batalha escolhido. O ITF manteve, em linhas gerais, a jaqueta de abertura cruzada herdada da era dos kwans, com variações de acabamento por faixa e grau. Houve até uma tentativa, mal documentada e de alcance limitado, de produzir um dobok cinza com apoio da Coreia do Norte, num episódio conhecido informalmente como “Juche fiber”, mas o experimento não vingou e a maioria das escolas ITF seguiu com a linha cruzada tradicional. A ruptura de Choi Hong Hi com a Coreia do Sul foi institucional e política, não estética. Depois veio a versão mais recente, com linhas verticais, militarizadas que caiu como uma luva na ideia de associar o taekwondo ao militarismo do final da década de 1960.

1971-1978: nacionalismo de Estado e a criação do V-neck no Kukkiwon

O ponto de virada estética acontece dentro do Kukkiwon, e não por acaso durante o período de maior envolvimento do Estado sul-coreano na construção institucional do taekwondo. Em 1971, o presidente Park Chung Hee declara o taekwondo esporte nacional da Coreia e libera recursos públicos para a construção do Kukkiwon, sob a presidência de Kim Un Yong à frente da Korea Taekwondo Association. Kim, figura ligada aos serviços de inteligência sul-coreanos antes de assumir a liderança esportiva, também rompe formalmente os laços entre a KTA e o ITF de Choi, movido pela convicção de que a arte marcial coreana deveria ter sua governança centralizada dentro da Coreia.

Em agosto de 1978, representantes de nove kwans assinam a Proclamação de Unificação do Kukkiwon. No mesmo ano, o Kukkiwon adota oficialmente o dobok de vestir por cima, com gola em V, substituindo a antiga jaqueta cruzada de gola em Y. A justificativa oficial, repetida por instrutores da época, era simples: afastar visualmente o taekwondo do karate, do qual até então era esteticamente indistinguível. O detalhe não é irrelevante: pesquisadores que estudam a formação institucional do taekwondo moderno, como Steven Capener, descrevem esse período como o de maior investimento estatal na construção de uma narrativa de origem puramente coreana e milenar para uma arte marcial que, na prática, tinha raízes recentes e mistas. O uniforme novo é um artefato visível dessa narrativa: um símbolo desenhado deliberadamente para apagar o parentesco japonês que os primeiros kwans nunca esconderam.

O Ocidente e a permanência do corte cruzado: Jhoon Rhee e Haeng Ung Lee

Enquanto isso acontecia em Seul, o taekwondo já havia cruzado o Pacífico havia mais de uma década. Jhoon Rhee se estabelece nos Estados Unidos em 1962 e funda uma cadeia de escolas na região de Washington D.C. Haeng Ung Lee chega a Omaha, Nebraska, e em 1969, funda a American Taekwondo Association. Ambos construíram suas tradições marciais nos Estados Unidos antes de 1978, portanto antes da reforma estética do Kukkiwon. Rhee, inclusive, experimentou o estilo ITF por influência de Choi Hong Hi na década de 1970, antes de romper também com essa federação e consolidar seu próprio estilo, incorporando elementos tradicionais e elementos ITF, mas sem jamais adotar o V-neck do Kukkiwon como padrão.

O resultado é uma curiosa inversão histórica. O corte de jaqueta cruzada, que no Kukkiwon foi deliberadamente abandonado por ser “parecido demais com o karate”, sobreviveu e se perpetuou justamente nas linhagens ocidentais mais antigas, pela simples razão de terem se formado, e se isolado institucionalmente, antes da reforma de 1978. O que em Seul passou a ser lido como resquício a ser corrigido, nos Estados Unidos seguiu sendo simplesmente o dobok, sem disputa. Hoje, décadas depois, esse mesmo corte cruzado voltou a ser usado pelo próprio Kukkiwon, mas apenas como uniforme de competição de poomsae, reintroduzido em 2009: o design descartado por parecer velho e japonês, em 1978, retornou trinta anos depois como o design que parece mais tradicional e mais coreano.

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